ANN006

A data exata do decreto

O artigo analisa o decreto de Artaxerxes sobre Jerusalém, articulando o calendário bíblico em torno das setenta semanas proféticas de Daniel, decisivas para datar a vida de Jesus, sem certezas históricas.

16 min decreto Artaxerxes Esdras profecia cronologia 14 versículos 7 livros

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Introdução

Este estudo constitui um dos elementos da nossa pesquisa dedicada ao estabelecimento de uma cronologia da vida do Messias Jesus a partir da profecia das setenta semanas de Daniel (Daniel 9.24-27). Deve ser compreendido em ligação com os outros estudos desta série, cada um trazendo dados complementares históricos, calendários e bíblicos. O conjunto desses trabalhos forma uma análise coerente que visa reconstituir, com a maior precisão possível, o encadeamento dos acontecimentos relatados nos Evangelhos.

O estudo cronológico das profecias bíblicas, e em particular as de Daniel e Esdras, ocupa um lugar central na compreensão da história da salvação. Com efeito, o profeta Daniel anuncia que «setenta semanas estão determinadas» sobre o povo e sobre a cidade santa (Daniel 9.24), um período de 490 anos que conduz até a vinda e a morte do Messias (Daniel 9.26).

Identificar o ponto de partida exato dessa contagem profética é, portanto, essencial para qualquer tentativa séria de reconstituição cronológica da vida de Jesus Cristo. Entre as diversas hipóteses propostas, o decreto atribuído ao rei Artaxerxes, relatado em Esdras 7.8-9, aparece como um dos candidatos mais plausíveis para marcar o início das setenta semanas.

O presente estudo propõe-se examinar com precisão os dados textuais, históricos e calendários relacionados a esse episódio. Procura determinar a data exata do 1º de nisã do sétimo ano de Artaxerxes, data em que Esdras deixou a Babilônia depois de receber a autorização real. Essa abordagem exige levar em conta as limitações do calendário hebraico antigo, os limites das reconstruções astronômicas modernas, bem como as nuances históricas do reinado dos soberanos persas.

Prosseguimos esta análise com a convicção expressa pela Escritura de que Deus dirige o curso da história e estabelece os tempos segundo o seu propósito:

Daniel 2.21 (Bíblia Livre) :
E ele é o que muda os tempos e as estações; ele tira os reis, e confirma os reis; ele é o que dá a sabedoria aos sábios, e a conhecimento aos entendidos;

É nessa perspectiva que consideramos os acontecimentos relatados por Esdras e Daniel: não como simples dados históricos, mas como elementos de um plano divino minuciosamente arranjado, cujas datas trazem a marca de uma intenção soberana.

I. As fontes históricas e o quadro cronológico

O livro de Esdras relata que Esdras, o sacerdote, recebeu do rei Artaxerxes a autorização oficial para voltar a Jerusalém e ali ensinar a Lei de Deus:

Esdras 7.8-9 (Bíblia Livre) :
E ele chegou a Jerusalém no mês quinto, no sétimo ano do rei.Pois no primeiro dia do mês primeiro, foi o princípio da subida da Babilônia; e ao primeiro do mês quinto chegou a Jerusalém, segundo a boa mão de seu Deus sobre ele.

Os documentos persas e a prática administrativa confirmam que os anos de reinado eram contados a partir do 1º de nisã, data do Ano-Novo oficial. Tendo Artaxerxes subido ao trono em 465 a.C., o seu sétimo ano corresponde a 458 a.C. no calendário juliano.

Esdras indica:

Esdras 7.9 (Bíblia Livre) :
Pois no primeiro dia do mês primeiro, foi o princípio da subida da Babilônia; e ao primeiro do mês quinto chegou a Jerusalém, segundo a boa mão de seu Deus sobre ele.

Esse dia marcava, portanto, ao mesmo tempo o decreto real (a promulgação) e a partida de Esdras, sublinhando o vínculo entre decisão e execução.

II. O decreto e a preparação da partida

Uma expedição de tal envergadura exige uma preparação logística considerável. Isso levanta a questão: o 1º de nisã do ano 458 a.C. marca o início da viagem ou o do decreto real? Esdras precisa, de fato, que partiu da Babilônia no primeiro dia do primeiro mês.

O texto de Esdras indica que a partida ocorreu no 1º de nisã, mas não precisa explicitamente a data de promulgação do decreto. No entanto, a organização de uma expedição que envolvia vários milhares de pessoas supõe uma preparação prévia importante.

É, portanto, plausível que a autorização real tenha sido concedida antes dessa data, de forma verbal, e que o decreto oficial tenha sido redigido e entregue no momento da partida. Nessa perspectiva, o 1º de nisã pode ser considerado, do ponto de vista funcional, a data efetiva do decreto, na medida em que este se torna operante a partir desse momento.

Essa interpretação, embora plausível, deve ser considerada uma hipótese razoável e não uma certeza documental.

III. Análise astronômica e conversão das datas

Levando em conta as correspondências entre o calendário judaico antigo e os calendários civis, os cálculos astronômicos situam o 1º de nisã do ano 458 a.C. por volta do início do mês de março, isto é, aproximadamente em 4 de março de -458 no calendário gregoriano proléptico (ou por volta de 6 de março no calendário juliano).

Essa estimativa baseia-se no momento da lua nova astronômica, ajustado em função do prazo necessário para a observação efetiva do primeiro crescente visível, elemento determinante para fixar o início do mês (Gênesis 1.5).

No entanto, estando o povo então deportado na Babilônia, parece mais verossímil que essa observação tenha sido feita ali e não em Jerusalém.

Contudo, duas hipóteses devem ser consideradas.

Numa primeira abordagem, se adotarmos essa lunação do início de março como ponto de partida, o 14 de nisã se situaria antes do equinócio da primavera. Tal configuração parece pouco compatível com as exigências agrícolas e religiosas do judaísmo antigo, que implicam que a Páscoa seja celebrada na primavera (Exodo 12.6).

Numa segunda abordagem, é, portanto, possível, e até plausível, que as autoridades religiosas tenham decidido adiar o início do ano em uma lunação, acrescentando um mês intercalar (Adar II). Esse procedimento, atestado no funcionamento do calendário lunissolar hebraico, permitia realinhar as festas com o ciclo das estações. Nesse caso, o 1º de nisã seria deslocado para o início de abril, resultando numa Páscoa celebrada depois do equinócio, em conformidade com as práticas tradicionais.

Assim, a determinação do 1º de nisã para o ano 458 a.C. depende da escolha entre estes dois modelos:

  • ou uma datação estritamente astronômica, situando o início de nisã no começo de março;
  • ou uma datação ajustada por intercalação, recuando o calendário em uma lunação a fim de preservar a coerência sazonal das festas.

É esta segunda hipótese que é adotada no presente estudo, na medida em que oferece melhor coerência com os dados bíblicos e com as práticas do judaísmo antigo.

A determinação do ponto de partida, situada no início de abril de 458 a.C., permanece sujeita a uma incerteza inerente aos métodos de reconstituição do calendário judaico antigo, fundados na observação do primeiro crescente lunar.

Nessas condições, a projeção das setenta semanas conduz não a uma data rigorosamente certa ao dia, mas a uma convergência cronológica notável em torno dos primeiros dias de abril do ano 33.

Essa precisão, da ordem de alguns dias, mostra-se, no entanto, significativa diante das margens de incerteza habitualmente admitidas para as reconstruções calendárias deste período.

IV. O cálculo das setenta semanas

O profeta Daniel anuncia:

Daniel 9.25 (Bíblia Livre) :
Sabe pois e entendas: desde a saída da palavra para restaurar e edificar a Jerusalém até o Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; voltará a ser construída com praças e muro, porém em tempos angustiosos.

Somando os 490 anos proféticos (isto é, 70 × 7 anos) à data do decreto de Artaxerxes, isto é, início de abril de -458 a.C., chegamos ao período do início de abril do ano 33 d.C., data tradicionalmente associada à morte e à ressurreição de Jesus Cristo.

Esse resultado concorda com outros dados dos Evangelhos: Jesus, com «cerca de trinta anos» por ocasião do seu batismo (Lucas 3.23), teria iniciado o seu ministério público por volta do ano 29 d.C., em conformidade com a cronologia decorrente do decreto. Três anos e meio depois — duração que corresponde simbolicamente à «septuagésima semana» — cumpria-se a crucificação, que «fez cessar o sacrifício e a oferta» (Daniel 9.27).

V. Alcance teológico

O vínculo entre o decreto de Esdras e a ressurreição de Cristo sublinha a coerência interna da revelação bíblica. A profecia de Daniel liga diretamente a restauração de Jerusalém após o exílio babilônico à obra redentora do Messias:

João 3.16 (Bíblia Livre) :
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Esse fio cronológico, estendido por quase cinco séculos, demonstra que a morte e a ressurreição de Jesus não são um acontecimento isolado, mas a culminação de um propósito divino que se estende do cativeiro de Israel até a redenção universal.

Conclusão

O exame dos textos de Esdras e de Daniel revela uma concordância exata entre os dados históricos e os anúncios proféticos. O decreto de Artaxerxes, datado do início de abril de -458 a.C., marca o começo das setenta semanas anunciadas a Daniel. Somando os 490 anos determinados, alcançamos a data do início de abril de 33 d.C., que corresponde, segundo as nossas análises, ao período exato da rejeição, da crucificação e da ressurreição do Messias Jesus.

Assim, a cronologia bíblica testemunha um plano divino imutável:

Gálatas 4.4 (Bíblia Livre) :
Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei,

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