PER370

Primeira aparição do Messias Jesus a Maria Madalena

A perícope PER370 analisa a primeira aparição de Cristo ressuscitado a Maria Madalena, no domingo, 3 de abril do ano 33, pela manhã, perto do túmulo em Jerusalém. Relatado principalmente por João (Jo 20,11-18) e confirmado por Marcos (Mc 16,9), esse encontro revela a ignorância inicial de Maria a respeito da ressurreição, o seu engano ao tomar Jesus por um jardineiro e a natureza particular das aparições pascais. O artigo adota um método sinótico rigoroso, confrontando os evangelhos.

34 min ressurreição Maria Madalena aparição túmulo Jesus ressuscitado 51 versículos 6 livros

Consulta

Textos bíblicos

Mateus
Mateus (Bíblia Livre) não citado no livro
Marcos
Marcos 16.9-11 (Bíblia Livre)

E havendo ressuscitado pela manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual havia expulsado sete demônios.

Ela se foi, e anunciou aos que estiveram com ele, que estavam tristes e chorando.

Quando ouviram que ele estava vivo, e que havia sido visto por ela, eles não creram.

Lucas
Lucas (Bíblia Livre) não citado no livro
João
João 20.12-18 (Bíblia Livre)

E viu a dois anjos vestidos de branco, sentados um à cabeceira, e o outro aos pés, onde estava posto o corpo de Jesus.

E disseram-lhe eles: Mulher, por que choras? Disse-lhes ela: Porque levaram a meu Senhor, e não sei onde o puseram.

E havendo dito isto, virou-se para trás, e viu Jesus em pé, e não sabia que era Jesus.

Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem buscas? Ela, pensando que era o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.

Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, virando-se, disse-lhe: Rabôni! (que quer dizer Mestre).

Disse-lhe Jesus: Não me toques; porque ainda não subi para o meu Pai; porém vai a meus irmãos, e dize- lhes: Subo para meu Pai, e para vosso Pai; para meu Deus, e para vosso Deus.

Veio Maria Madalena, e anunciou aos discípulos, que vira ao Senhor, e que estas coisas lhe dissera.

Detalhes técnicos

Ano 33

Local: O túmulo perto do monte Gólgota, em Jerusalém

Data: domingo, 3 de abril, pela manhã

Método: Passamos para João

Nota sobre o método: Marcos confirma as palavras de João

Mapa de Jerusalém e região
Gráfico de barras do domingo

Os Evangelhos de João e de Marcos relatam que Maria Madalena foi a primeira pessoa a quem Jesus ressuscitado se manifestou.

Detalhes cronológicos, segundo as nossas conclusões:

_29 Resta tratar um último ponto: o Messias Jesus havia falado de ressurreição, de modo que é mais prudente colocar guardas diante do túmulo. É o pedido feito a Pilatos no próprio dia do ; nada detém esses fervorosos religiosos. Mateus 27.62-66.

_30 A ressurreição ocorre no domingo de manhã, ao alvorecer. Temos, assim, os 3 dias e 3 noites segundo a contagem inclusiva judaica. Mateus 28.2-4 ; Marcos 16.2-4 ; Lucas 24.1-3. Levamos em conta a noite em pleno meio-dia.

_31 Agora vêm as diversas aparições do Messias Jesus, vivo, a partir do domingo, 3 de abril do ano 33, bem cedo pela manhã. João 20.11-18 ; Mateus 28.8-10 ; Marcos 16.8 ; João 20.24-34 ; Marcos 16.13-14 ; Lucas 24.13-35 ; Marcos 16.14 ; Lucas 24.36-49 ; João 20.26-31 ; João 21.1-14.

Você pode consultar a cronologia completa no estudo ANN026 : A hora da crucificação.

Comentário:

1- A primeira aparição do Ressuscitado

O evangelista Marcos afirma que a primeira pessoa a quem Cristo ressuscitado se manifestou foi Maria Madalena (Marcos 16.9). O seu relato permanece, contudo, muito conciso e não fornece nenhum detalhe sobre as circunstâncias desse encontro. É principalmente o Evangelho segundo João que relata esse acontecimento excepcional de maneira mais desenvolvida e mais pessoal (João 20.11-18).

Essa primeira aparição reveste-se de particular importância nos relatos da ressurreição, pois coloca em primeiro plano uma discípula que permaneceu fiel até o fim, enquanto a maioria dos apóstolos ainda se encontrava no temor e na incerteza (João 20.19).

2- A ignorância persistente de Maria Madalena

Todo o relato joanino constitui um argumento adicional em favor da hipótese de que Maria Madalena ainda ignorava a ressurreição quando voltou ao túmulo.

O seu diálogo com os dois anjos mostra que ela continua persuadida de que o corpo de Jesus foi removido: “Tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram” (João 20.13). Se já tivesse ouvido o anúncio dirigido às outras mulheres: “Não está aqui, ressuscitou” (Mateus 28.6; Lucas 24.6), tal reação seria mais difícil de explicar.

Essa observação concorda com o relato de João, que indica que, depois de avisar Pedro e o discípulo amado, Maria voltou ao túmulo quando estes já tinham partido (João 20.2-10).

3- O Ressuscitado tomado por jardineiro

João relata que, depois de sua conversa com os anjos, Maria se volta e vê Jesus, sem contudo reconhecê-lo imediatamente. Ela o toma pelo jardineiro do lugar (João 20.14-15).

Esse engano é particularmente significativo. Sugere que nem os anjos nem o Senhor ressuscitado se apresentam com um aspecto espetacular ou aterrador. Maria dirige-se a eles com simplicidade e naturalidade.

Essa dificuldade em reconhecer Jesus encontra-se em outros relatos. Os discípulos de Emaús caminham longamente com ele sem discernir a sua identidade (Lucas 24.13-16), e os discípulos reunidos nas margens do não o reconhecem imediatamente (João 21.4-7). Essas diversas cenas mostram que as aparições do Ressuscitado têm um caráter particular que ultrapassa a experiência humana comum (1 Coríntios 15.42-49).

4- Uma afeição mais forte do que toda esperança de ressurreição

Persuadida de estar diante do guarda do jardim, Maria lhe pergunta para onde o corpo foi levado, a fim de poder ela mesma buscá-lo (João 20.15).

Esse pedido testemunha o seu profundo apego ao Mestre. A sua única preocupação ainda é reencontrar aquele a quem continua chamando “meu Senhor” (João 20.13). Nada em suas palavras leva a supor que ela espere uma ressurreição iminente.

Essa atitude confirma mais uma vez que as primeiras testemunhas não esperavam de modo algum o acontecimento que acabava, no entanto, de cumprir os repetidos anúncios de Jesus (Mateus 16.21; Marcos 8.31; Lucas 18.31-34).

5- O chamado pessoal do Bom Pastor

A virada do relato ocorre quando Jesus a chama pessoalmente: “Maria!” (João 20.16). Ela reconhece então instantaneamente o seu Senhor e lhe responde: “Rabôni!”, isto é, “Mestre” (João 20.16).

Esse reconhecimento parece repousar menos na simples percepção visual do que na voz familiar daquele que ela seguira durante vários anos. A cena lembra naturalmente as palavras do Bom Pastor: “Chama pelo nome as suas próprias ovelhas” (João 10.3) e “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem” (João 10.27).

O vínculo entre essas duas passagens constitui uma das mais belas correspondências teológicas próprias do Evangelho segundo João.

6- Por que Maria não reconhece Jesus imediatamente?

Vários fatores podem ajudar a explicar a dificuldade inicial de Maria em reconhecer o seu Senhor. João sublinha primeiro que ela chora abundantemente (João 20.11). A fraca luz da aurora, a posição do sol, bem como a perturbação emocional provocada pelos acontecimentos recentes também podem ter desempenhado um papel.

A isso se acrescenta o caráter particular do corpo glorificado do Ressuscitado. Os discípulos de Emaús também só reconhecem Jesus no momento do partir do pão (Lucas 24.30-31), enquanto os apóstolos reunidos no cenáculo pensam, a princípio, ver um espírito (Lucas 24.37).

Esses diversos relatos mostram que as aparições de Cristo ressuscitado pertencem já à ordem da glória futura anunciada pelo apóstolo Paulo (1 Coríntios 15.42-49; Filipenses 3.20-21).

7- A primeira mensageira da ressurreição

João não relata nenhuma reação de terror ou de estupor em Maria. Assim que reconhece Jesus, a relação de confiança e afeição que a unia ao seu Mestre retoma naturalmente o seu lugar.

O Senhor lhe confia então uma missão particular: anunciar aos discípulos que ele sobe para seu Pai e Pai deles, para seu Deus e Deus deles (João 20.17). Maria Madalena torna-se assim a primeira mensageira da ressurreição: “Maria Madalena foi anunciar aos discípulos que tinha visto o Senhor” (João 20.18).

Marcos também resume essa missão ao lembrar que Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena (Marcos 16.9-10).

8- O testemunho de uma mulher no contexto do século I

Essa missão reveste-se de particular importância no contexto do judaísmo do século I, em que o testemunho das mulheres geralmente não possuía o mesmo valor jurídico que o dos homens.

É, pois, notável que Deus tenha escolhido precisamente uma mulher para se tornar a primeira anunciadora da ressurreição. Essa escolha manifesta que os critérios divinos frequentemente diferem dos dos homens (1 Samuel 16.7) e lembra a palavra de Paulo: “Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes” (1 Coríntios 1.27-29).

9- Uma lembrança pessoal cuidadosamente conservada

A notável precisão dos detalhes relatados por João leva a pensar que eles provêm, direta ou indiretamente, do testemunho da própria Maria.

Com efeito, nenhuma outra testemunha humana parece ter assistido a esse diálogo privado entre o Ressuscitado e essa discípula. As palavras trocadas, as emoções expressas e o desenrolar do relato trazem as marcas de uma lembrança pessoal cuidadosamente conservada e transmitida no seio da Igreja primitiva (Lucas 1.1-4).

Sem poder demonstrá-lo com certeza, não é impossível que João tenha preservado voluntariamente esse testemunho para honrar a memória dessa mulher fiel.

10- Um modelo de fidelidade e perseverança

O contraste com os apóstolos mostra-se particularmente marcante. Enquanto estes permanecem trancados por medo das (João 20.19) e acolhem com incredulidade os primeiros anúncios da ressurreição (Lucas 24.11), Maria Madalena dá mostras de notável fidelidade.

A sua perseverança leva-a a permanecer junto ao túmulo enquanto Pedro e João já partiram (João 20.10-11). É nessa solidão e nessa incompreensão que ela recebe o privilégio único de ser a primeira testemunha de Cristo ressuscitado (João 20.14-18).

Assim, Maria Madalena aparece não só como a primeira testemunha da ressurreição, mas também como uma das figuras mais cativantes dos relatos pascais. O seu exemplo ilustra a fidelidade de uma discípula que, tendo vindo procurar um morto, encontra finalmente o seu Senhor vivo.