PER372

A aparição do Messias Jesus a Pedro

A aparição de Jesus ressuscitado a Simão Pedro é atestada por Lucas 24.34 e 1 Coríntios 15.3-5, mas nenhum evangelista descreve o seu conteúdo. Situado no domingo, 3 de abril do ano 33 d.C., depois das aparições às mulheres e antes da aos discípulos de Emaús, esse encontro íntimo parece ser uma reconciliação pessoal entre Jesus e Pedro após a sua negação. Pedro teria sido, assim, o primeiro apóstolo a ver o Senhor ressuscitado.

31 min aparição de Jesus ressurreição Simão Pedro Cefas Lucas 24 45 versículos 6 livros

Consulta

Textos bíblicos

Mateus
Mateus (Bíblia Livre) não citado no livro
Marcos
Marcos 16.7 (Bíblia Livre)

Porém ide, dizei a seus discípulos e a Pedro, que ele vai adiante de para a Galileia; ali o vereis, como ele vos disse.

Lucas
Lucas 24.33-35 (Bíblia Livre)

E levantando-se na mesma hora, voltaram para Jerusalém, e acharam reunidos aos onze, e aos que estavam com eles,

Que diziam: Verdadeiramente o Senhor ressuscitou, e já apareceu a Simão.

E eles contaram as coisas que lhes aconteceram no caminho; e como foi reconhecido por eles quando partiu o pão.

João
João (Bíblia Livre) não citado no livro
João
João (Bíblia Livre) não citado no livro

Detalhes técnicos

Ano 33

Local: O túmulo perto do monte Gólgota, em Jerusalém

Data: domingo, 3 de abril, pela manhã

Método de trabalho: Passamos a Lucas

Nota sobre o método de trabalho: Lucas é o único evangelista a mencionar esse encontro; Paulo confirmará esse fato

Mapa de Jerusalém e região
Gráfico de barras do domingo

Esta terceira aparição é sem dúvida uma das mais misteriosas, pois os autores do Novo Testamento se limitam a atestar a sua realidade sem descrever as circunstâncias.

Detalhes cronológicos, segundo as nossas conclusões:

_29 Resta tratar um último ponto: o Messias Jesus havia falado de ressurreição, de modo que é mais prudente colocar guardas diante do túmulo. É o pedido feito a Pilatos no próprio dia do ; nada detém esses fervorosos religiosos. Mateus 27.62-66.

_30 A ressurreição ocorre no domingo de manhã, ao alvorecer. Temos, assim, os 3 dias e 3 noites segundo a contagem inclusiva judaica. Mateus 28.2-4 ; Marcos 16.2-4 ; Lucas 24.1-3. Levamos em conta a noite em pleno meio-dia.

_31 Agora vêm as diversas aparições do Messias Jesus, vivo, a partir do domingo, 3 de abril do ano 33, bem cedo pela manhã. João 20.11-18 ; Mateus 28.8-10 ; Marcos 16.8 ; João 20.24-34 ; Marcos 16.13-14 ; Lucas 24.13-35 ; Marcos 16.14 ; Lucas 24.36-49 ; João 20.26-31 ; João 21.1-14.

Você pode consultar a cronologia completa no estudo ANN026 : A hora da crucificação.

Comentário:

1- Uma aparição misteriosa, mas solidamente atestada

Entre as aparições de Cristo ressuscitado relatadas no Novo Testamento, a concedida a Simão Pedro continua sendo uma das mais enigmáticas. Sua existência é claramente atestada, mas nenhum autor inspirado julgou útil relatar o seu conteúdo. Tudo leva a crer que se trata, antes de tudo, de um encontro profundamente pessoal entre o Senhor ressuscitado e o seu discípulo caído.

Dois testemunhos independentes fazem referência explícita a essa aparição. Os discípulos reunidos em Jerusalém declaram: «Ressuscitou verdadeiramente o Senhor e apareceu a Simão» (Lucas 24.34). Por sua vez, o apóstolo Paulo lembra, num texto geralmente considerado um dos mais antigos resumos da fé cristã, que o Cristo ressuscitado «apareceu a Cefas e depois aos doze» (1 Coríntios 15.3-5).

A concordância entre Lucas e Paulo mostra que essa aparição pertencia a uma tradição antiga, solidamente estabelecida e amplamente reconhecida na Igreja primitiva.

2- O lugar dessa aparição na cronologia

Os Evangelhos não precisam o momento exato desse encontro. Contudo, uma harmonização dos diversos relatos permite situar essa aparição privada no próprio dia da ressurreição.

Ela parece ter ocorrido depois das aparições às mulheres (Mateus 28.9-10; João 20.14-18), mas antes do retorno dos discípulos de Emaús a Jerusalém (Lucas 24.33-35). Precede também a aparição coletiva da noite aos discípulos reunidos (Lucas 24.36-49; João 20.19-23).

Embora não seja possível apresentar uma demonstração absoluta, essa reconstrução leva a pensar que Pedro foi o primeiro dos apóstolos a contemplar o Senhor ressuscitado.

3- A lembrança da negação

Algumas horas antes da sua prisão, Jesus havia dirigido a Simão Pedro palavras particularmente significativas:

«Simão, Simão, eis que Satanás pediu para vos peneirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos» (Lucas 22.31-32).

Apesar dessa advertência, Pedro havia negado o seu Mestre por três vezes (Mateus 26.69-75; Lucas 22.54-62). Seu sincero arrependimento aparece nas lágrimas amargas que derrama após o canto do galo (Lucas 22.62).

Nesse contexto, vários comentaristas consideram verossímil que essa aparição privada tenha tido por finalidade restaurar o discípulo arrependido antes que ele retomasse o seu lugar entre os demais apóstolos. Essa interpretação permanece, contudo, uma dedução teológica, pois as Escrituras não relatam nenhum detalhe sobre o conteúdo da conversa deles.

4- A menção particular de Pedro na mensagem do anjo

Um detalhe notável aparece no relato de Marcos. O anjo não se limita a pedir às mulheres que avisem os discípulos; acrescenta explicitamente: «Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis, como ele vos disse» (Marcos 16.7).

Essa menção particular de Simão Pedro é ainda mais impressionante porque ele acabara de negar o seu Mestre por três vezes (Marcos 14.66-72). Embora pudesse considerar-se definitivamente desqualificado e excluído do círculo apostólico, a mensagem celeste o designa nominalmente entre os destinatários desse anúncio.

Vários comentaristas viram nessa precisão uma marca da graça do Senhor para com o seu discípulo arrependido. Longe de ser rejeitado após a sua queda, Pedro continua sendo objeto da atenção particular do Ressuscitado. Essa menção pessoal pode ser aproximada das palavras pronunciadas antes da Paixão: «Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos» (Lucas 22.32).

Sem permitir concluir com certeza que Pedro já havia encontrado o Senhor quando as mulheres receberam essa mensagem, essa precisão prepara, no entanto, o leitor para a graça particular que lhe seria concedida. Ela anuncia, de certo modo, a restauração do discípulo caído e a missão que ele logo exerceria no seio da Igreja primitiva (Atos 1.15; Atos 2.14).

Essa menção individual de Pedro constitui também um indício da autenticidade do relato. Um detalhe assim, aparentemente secundário, explica-se naturalmente se a lembrança dessa palavra do anjo foi cuidadosamente conservada na tradição apostólica. É possível, aliás, que Marcos, geralmente considerado o porta-voz de Pedro, tenha conservado deliberadamente essa precisão, que testemunhava a misericórdia particular de que o apóstolo fora objeto (1 Pedro 5.13).

5- O notável silêncio dos Evangelhos

O silêncio dos autores sagrados sobre esse encontro é particularmente marcante. Diferentemente das aparições concedidas a Maria Madalena, aos discípulos de Emaús ou ao grupo dos Onze, nenhum diálogo é relatado.

Alguns exegetas veem nisso a vontade deliberada de preservar o caráter íntimo desse encontro entre o Senhor e o seu discípulo. O Novo Testamento menciona outras conversas cujo conteúdo exato permanece desconhecido. Assim, Lucas relata apenas uma breve alusão ao ensino dado aos discípulos de Emaús (Lucas 24.27), sem reproduzir as palavras.

Essa discrição talvez contribua para sublinhar o caráter profundamente pessoal da graça concedida a Pedro.

6- Uma preparação para a restauração pública de João 21

A aparição privada do dia da ressurreição não substitui a restauração pública relatada mais tarde às margens do (João 21.15-19).

É possível discernir aí duas etapas complementares. A primeira seria uma reconciliação pessoal, concedida a Pedro no próprio dia da ressurreição. A segunda corresponderia à sua reabilitação pública diante dos demais discípulos, vários dias depois, na Galileia.

A tripla pergunta feita por Jesus: «Amas-me?» (João 21.15-17) ecoa naturalmente as três negações de Pedro (João 18.17; João 18.25-27). É também nessa ocasião que o Senhor lhe renova a missão pastoral: «Apascenta as minhas ovelhas» (João 21.17).

7- A graça concedida ao discípulo caído

Há um contraste impressionante entre a queda de Pedro e o favor particular que lhe é concedido. Aquele que havia negado publicamente o seu Mestre torna-se o primeiro dos Doze a receber a visita do Ressuscitado.

Essa inversão ilustra um dos grandes temas do Evangelho: a graça triunfando sobre o fracasso humano. O mesmo Pedro que fraquejara diante de uma serva (Mateus 26.69-70) se tornaria, algumas semanas depois, o principal porta-voz dos apóstolos em Jerusalém (Atos 2.14-36) e testemunharia com coragem perante o (Atos 4.8-12).

A promessa pronunciada antes da Paixão encontra então o seu cumprimento: depois de se converter, Pedro terá de fato a missão de fortalecer os seus irmãos (Lucas 22.32).

8- Um encontro sob o signo da graça

Assim, a aparição de Cristo ressuscitado a Simão Pedro pode ser situada entre as aparições concedidas às mulheres e a manifestação coletiva da noite aos discípulos reunidos.

Embora nenhum detalhe tenha sido conservado, os textos permitem pensar que se tratou de um encontro privado destinado a restaurar aquele que havia conhecido a mais dolorosa das quedas. A própria ausência de informações precisas talvez convide o leitor a fixar a atenção não nas circunstâncias dessa entrevista, mas no seu significado profundo.

O primeiro dos apóstolos a ter negado o seu Mestre torna-se também o primeiro dos Doze a contemplar o Ressuscitado. Essa graça particular concedida a Pedro já anuncia a mensagem que os apóstolos proclamariam em breve ao mundo inteiro: o perdão e a restauração são possíveis para todos os que voltam a Deus com arrependimento e fé (Atos 2.38; Atos 3.19).