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O regresso de Maria a Nazaré

O artigo estuda o regresso de Maria a Nazaré depois de visitar Isabel. Conhecedora das profecias, Maria assiste ao nascimento de João, confirmando o papel futuro dele no plano de Deus. Regressa com a sua família após a peregrinação da Páscoa.

31 min Maria Nazaré João Batista Isabel profecias 46 versículos 15 livros

Consulta

Textos bíblicos

Mateus
Mateus (Bíblia Livre) não citado no livro
Marcos
Marcos (Bíblia Livre) não citado no livro
Lucas
Lucas 1.56 (Bíblia Livre)

Maria esteve com ela por quase três meses; então voltou para sua casa.

João
João (Bíblia Livre) não citado no livro

Detalhes técnicos

Local: Nazaré, na Galileia

Data: 23 de abril -2 a.C. (fim da festa da Páscoa)

Método de trabalho: Continuamos com Lucas

Nota sobre o método de trabalho: Lucas é o único a registar este episódio

O regresso de Maria a Nazaré

O regresso de Maria demora cinco dias. É acompanhada pelos membros da sua família.

O regresso de Maria a Nazaré

O regresso de Maria

1- O primeiro dia dos Pães Ázimos: uma festa dupla

A expressão usada nos três Evangelhos sinópticos, «o primeiro dia dos pães ázimos», designa o início da grande festa da Páscoa, que também incluía a dos Pães Ázimos (Mateus 26.17-19; Marcos 14.12-16; Lucas 22.7-13). Naquela época, estas duas celebrações eram consideradas um único período litúrgico, comemorando simultaneamente a saída do Egito e a fidelidade do povo em purificar a sua casa de todo o fermento, símbolo do pecado e da corrupção moral (Exodo 12.1-20; Exodo 13.3-10). Esta fusão no calendário testemunha a unidade teológica entre a libertação histórica de Israel e o seu apelo à santidade ritual (Deuteronômio 16.1-8).

2- A imolação do cordeiro pascal e as adaptações práticas

Segundo a prescrição mosaica, o cordeiro pascal devia ser imolado «entre as duas tardes», isto é, entre o pôr do sol e o anoitecer (Exodo 12.6; Números 9.3). Contudo, no tempo de Jesus, a enorme afluência de peregrinos a Jerusalém tornava difícil cumprir esta prescrição num intervalo tão curto. O Templo, centro nevrálgico do culto israelita, tinha de acolher dezenas de milhares de adoradores que vinham oferecer o sacrifício prescrito (Deuteronômio 16.5-6), formando intermináveis filas nos átrios sagrados.

Por necessidade pastoral e logística, as autoridades religiosas tinham, por isso, adaptado a regra mosaica, distribuindo o abate dos cordeiros por dois dias consecutivos. Esta adaptação testemunha a tensão permanente entre a letra da Lei e as exigências práticas da sua aplicação em grande escala.

3- Quinta-feira, 13 de nisã: dia de preparação

É muito provável que a quinta-feira, 13 de nisã, tenha sido dedicada a preparativos minuciosos: seleção dos cordeiros sem defeito (Exodo 12.5), abate ritual sob supervisão sacerdotal, confeção segundo as prescrições (Exodo 12.8-9) e organização da refeição, para que, ao cair da noite, cada família pudesse celebrar dignamente a festa na sua casa. Algumas famílias tinham até de conservar a carne até ao dia seguinte para participar no Seder oficial na sexta-feira à noite.

O evangelista João alude explicitamente a este momento quando escreve: «Antes da festa da Páscoa…» (João 13.1), designando assim claramente o dia de preparação. Com o tempo, este dia preparatório foi também integrado na festa dos Pães Ázimos, tão profundamente enraizada estava a proximidade entre as duas celebrações na consciência religiosa judaica.

4- A purificação das casas: dimensão espiritual da preparação

Nos lares israelitas, a preparação da festa revestia-se de uma dimensão profundamente espiritual. Cada família devia assegurar-se de que não restava qualquer vestígio de fermento em casa, realizando assim um ato simbólico de purificação interior (Exodo 12.15; Exodo 13.7). Esta prática ritual prefigurava a disposição de um coração pronto a apresentar-se diante de Deus com integridade e santidade.

O apóstolo Paulo retomará este simbolismo com uma profundidade cristológica notável: «Purificai-vos do fermento velho, para que sejais uma massa nova, uma vez que sois ázimos; pois Cristo, a nossa Páscoa, foi imolado» (1 Coríntios 5.7-8). Assim, à aproximação de 14 de nisã, tudo devia estar pronto: as casas purificadas de todo o fermento, o cordeiro preparado segundo os ritos e a mesa posta para a refeição sagrada.

5- A missão confiada a Pedro e João

Pedro e João receberam então uma missão particular do Mestre: ir preparar a refeição pascal (Lucas 22.8). Com base em instruções que parecem misteriosas, mas que se revelam de uma precisão notável, deviam encontrar um homem a transportar uma bilha de água e segui-lo até à casa onde tudo já estaria preparado (Marcos 14.13-15; Lucas 22.10-12).

Este pormenor tem um significado particular: transportar água fazia habitualmente parte das tarefas femininas na sociedade palestiniana do século I. Um homem a realizar esta tarefa destacava-se, por isso, de imediato na multidão de peregrinos. Esta indicação precisa atesta a presciência profética do Senhor e o seu domínio soberano dos acontecimentos futuros (Isaías 46.10).

6- A sala de cima: um lugar providencial

Segundo a tradição eclesial mais solidamente estabelecida, esta casa pertencia provavelmente a Maria, mãe de João Marcos, discípulo da primeira comunidade cristã (Atos 12.12). O anfitrião, homem fiel e discreto, já tinha reservado a sala de cima (anagaion em grego, designando uma divisão no piso superior) e preparado tudo o que era necessário para a refeição pascal (Marcos 14.15).

Este lugar tornar-se-ia um importante símbolo eclesial: o da última refeição, da instituição da Santa Ceia (Lucas 22.19-20; 1 Coríntios 11.23-26) e, posteriormente, da reunião dos discípulos no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre a Igreja nascente (Atos 1.13; Atos 2.1-4). A sala de cima constitui assim o berço geográfico da nova aliança.

7- A conspiração dos chefes religiosos: uma preparação nas trevas

Enquanto os discípulos se dedicavam a estes preparativos marcados pela santidade, outros preparavam um acontecimento de natureza radicalmente oposta: a conspiração contra o Messias. Nessa mesma quinta-feira, os chefes religiosos agiam na sombra. Caifás, sumo sacerdote naquele ano (João 11.49-51; João 18.14), e os membros do , desejosos de concluir tudo antes da festa para evitar qualquer agitação popular (Mateus 26.3-5; Marcos 14.1-2), convocavam falsas testemunhas, solicitavam a colaboração dos guardas do Templo e ultimavam meticulosamente o plano de detenção.

O acordo com Judas Iscariotes estava agora selado por trinta moedas de prata, cumprindo assim a profecia de Zacarias (Zacarias 11.12-13; Mateus 26.14-16). A rapidez da sucessão dos acontecimentos revela uma organização minuciosa. Caifás pressionava Judas a agir sem demora para entregar Jesus, o Messias, num lugar isolado, longe dos olhares da multidão que ainda o aclamava poucos dias antes (Mateus 21.8-11).

8- O contraste teológico: comunhão e traição

Este contraste narrativo é impressionante e portador de um profundo significado teológico: de um lado, os discípulos preparam a refeição da comunhão e da nova aliança selada no sangue do Messias (Lucas 22.20; Hebreus 9.15); do outro, as autoridades religiosas preparam a traição e a morte do Filho de Deus (Atos 2.23).

Tudo converge para a mesma noite, certamente a mais carregada de sentido da história humana. A luz e as trevas enfrentam-se num drama cósmico em que, paradoxalmente, serão as trevas a servir de instrumento ao cumprimento do desígnio redentor de Deus (João 1.5; Colossenses 1.13-14).

9- A discrição profética do Messias

Impressiona-nos a precisão dos pormenores que Jesus, o Messias, confia aos seus discípulos. Transmite-lhes indicações que evocam um itinerário codificado, mas cada elemento continua marcado por um domínio divino soberano. Mateus regista estas palavras: «Ide à cidade, a casa de um certo homem» (Mateus 26.18), ou, segundo algumas versões: «a casa daquele que conheceis».

Esta discrição deliberada não é fruto do acaso. Os discípulos conheciam manifestamente o lugar, mas os evangelistas omitiram voluntariamente o seu nome por prudência, para proteger estes amigos de Jesus, o Messias, ainda vivos quando os Evangelhos foram escritos. Esta precaução redacional testemunha tanto o contexto de perseguição das primeiras comunidades cristãs como a solicitude pastoral dos autores inspirados (João 21.24-25).

10- O mistério da salvação: o Cordeiro que prepara a sua própria Páscoa

Assim, por detrás destes preparativos materiais, desenha-se o grande mistério da salvação. Enquanto tudo parece convergir inexoravelmente para a morte, Deus cumpre o seu desígnio perfeito, determinado antes da fundação do mundo (1 Pedro 1.19-20; Efésios 1.4-7). O Messias ocupa o centro desta orquestração divina: prepara ele próprio a sua Páscoa, sabendo plenamente que se tornará o Cordeiro imolado (João 1.29; Apocalipse 5.6-9).

Nada lhe escapa. Tudo está previsto, ordenado e querido por um amor infinito pelo mundo: «Porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho único, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (João 3.16-17). Jesus, o Messias, Cordeiro de Deus sem defeito nem mancha, oferece-se voluntariamente como sacrifício expiatório, cumprindo assim todas as prefigurações da antiga aliança (Hebreus 10.1-14).