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O Evangelho de Marcos

O Evangelho segundo Marcos ocupa um lugar à parte entre os quatro relatos. Suas origens, sua composição e os vínculos entre Marcos e os acontecimentos que ele relata, esclarecidos pelas fontes históricas e pela tradição, fundamentam a credibilidade de seu autor.

28 min Evangelho de Marcos Redação Novo Testamento 14 versículos 5 livros

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Introdução

Neste anexo, vamos resumir as informações que encontramos principalmente na Bíblia, e em particular no Novo Testamento.

Muitos comentaristas dos textos do Novo Testamento afirmam que o Evangelho de Marcos teria sido o primeiro a ser redigido, seguido depois pelos de Mateus e de Lucas, e por fim pelo de João.

No entanto, a hipótese da anterioridade de Marcos é contestada, e outros especialistas colocam Mateus em primeiro lugar, logo antes de Marcos. No capítulo intitulado “Os Evangelhos”, explicamos as razões que nos levaram a defender a hipótese de uma anterioridade de Mateus.

O Evangelho de Marcos veio logo em seguida, de modo que poderíamos dizer que foram publicados quase simultaneamente. Neste estudo, vamos analisar as origens deste Evangelho sem entrar em detalhes que qualquer um pode ler na Internet.

I. Marcos, o autor do Evangelho

Notamos que os livros de Marcos e de João são assinados de maneira indireta; no caso de João, isso se faz pela expressão recorrente “o discípulo a quem Jesus amava”, e no de Marcos, por meio de uma anedota pouco comum e muito pessoal.

Quanto ao Evangelho de Marcos, não se trata propriamente de uma assinatura, mas antes de uma nota pessoal que nos conduz à identificação do autor.

Mas quem era esse jovem? Parece que ele é o autor deste Evangelho, pois é o único a conhecer um detalhe tão íntimo. Lucas nos relata outro fato que, como veremos, nos permitirá identificar esse personagem.

Estamos alguns meses após a morte do Messias Jesus, e Marcos é um homem conhecido. Sua mãe, Maria, muito ativa no apoio aos discípulos, é chamada “a mãe de João, cognominado Marcos”.

Mas que vínculo nos permite afirmar que o Marcos do Evangelho e João, cognominado Marcos, filho de Maria, são uma só e mesma pessoa?

O jovem citado no Evangelho de Marcos não poderia saber quando e para onde o Messias Jesus e seus discípulos iriam na noite da prisão, a menos que ele mesmo estivesse na mesma casa, a de Maria mencionada por Lucas.

Nesse caso, Maria é a mãe de Marcos, o autor do Evangelho que agora leva o seu nome. Notamos que, quando dois discípulos têm o mesmo nome, costumam ser distinguidos por um sobrenome, como Tiago, filho de Zebedeu, e o outro Tiago, filho de Alfeu. Tiago, o irmão do Senhor, era chamado de Justo, Tiago, o Justo.

Nenhum outro Marcos é mencionado nos Evangelhos. Podemos, portanto, afirmar que Marcos, o autor do Evangelho, é esse jovem que corria de noite por Jerusalém e que é filho de Maria, proprietária de uma grande casa em Jerusalém.

Esse jovem, portanto, não fazia parte dos Apóstolos e não foi uma testemunha direta do que vai nos escrever. Nessas condições, por que esse escrito foi considerado autêntico?

Quais são as fontes de Marcos?

II. Um testemunho interessante

Eusébio, bispo de Cesareia, cita por volta do ano 325 o testemunho de Papias, bispo de Hierápolis (por volta dos anos 125-130), que por sua vez relatava as afirmações de um certo João, o Presbítero, que poderia ser o apóstolo João. Eis o que ele diz:

“Marcos, que tinha sido o intérprete de Pedro, escreveu com exatidão tudo o que se lembrava, embora não o tenha feito em ordem, das palavras e dos atos do Senhor. Pois ele não tinha ouvido o Senhor nem sido seu discípulo, mas, mais tarde, como mencionei, o de Pedro. Pedro dava os seus ensinamentos conforme as necessidades, sem procurar fazer um relato ordenado dos discursos do Senhor. Assim, Marcos não cometeu erro ao escrever algumas coisas tal como se lembrava delas. Sua única preocupação era não omitir nada do que tinha ouvido e não relatar senão a verdade.”

Essa citação nos oferece a seguinte informação: Marcos, ou João Marcos, foi o intérprete do apóstolo Pedro. Esse testemunho remontaria ao apóstolo João, autor do quarto Evangelho.

De fato, dada a importância do apóstolo Pedro, é surpreendente que ele não tenha escrito diretamente um Evangelho. Gostaríamos de destacar dois pontos: o primeiro, por que Pedro, como fez com suas epístolas ou à semelhança de Paulo, não assinou esse escrito, se era sua fonte principal?

O segundo, como é possível que em nenhum momento, ao ler esse texto, se sinta o simples secretário que se contenta em escrever o que lhe é ditado?

De fato, ao ler essas linhas, tem-se a impressão de que quem redige viveu o que descreve!

III. O Evangelho segundo Marcos

A atribuição da redação deste Evangelho a Marcos só ocorreu no final do século II. Nessa época, Marcos, já falecido, era muito conhecido no meio cristão.

Não foi, portanto, o próprio Marcos que se atribuiu a paternidade dessa obra. O costume já estava estabelecido: era Marcos quem havia redigido este Evangelho, e a denominação ‘segundo Marcos’ apenas confirmou o que era evidente para todos naquela época.

É provavelmente para restabelecer um ponto histórico importante, segundo ele, que Eusébio nos relata a informação que mencionamos. Talvez desejasse simplesmente apoiar a autenticidade desse escrito?

Parece evidente que, mesmo que Marcos não tenha sido um apóstolo, ele foi um discípulo. Graças à sua mãe, Maria, aproximou-se muito cedo do grupo de íntimos que seguiam Jesus, o Messias.

Assim, mesmo que não tenha sido testemunha de todos os milagres que relata, ele presenciou alguns acontecimentos. Conhecia também a maioria dos fatos que Pedro lhe contava.

Além disso, convivia com os apóstolos, que se reuniam com frequência, sobretudo durante as grandes festas judaicas, na casa de sua mãe. É por todas essas razões que, ao lermos os relatos de Marcos, temos a impressão de que ele foi uma testemunha direta deles.

IV. A casa de Maria

Marcos permanece discreto em sua redação. Quando evoca a casa onde se realizará a última ceia do Senhor, não menciona explicitamente que se trata da casa de Maria, sua mãe.

Em vez disso, fornece detalhes que mantêm certa confidencialidade quanto à localização do lugar. Essa discrição contrasta com o segundo livro de Lucas, que divulga claramente todos os detalhes.

Essa diferença nos leva a pensar que o livro de Atos dos Apóstolos, redigido por Lucas, foi publicado numa época em que as testemunhas não corriam mais o risco de ser perseguidas, o que não é o caso na redação do relato de Marcos.

Constatamos que Lucas, em seu Evangelho, embora escrito mais tarde que o de Marcos, ainda toma precauções ao descrever a casa de Maria, ao passo que em sua segunda obra revela todos os detalhes.

Esse episódio nos lembra o relato de Marcos 11.1-7, em que observamos o conhecimento sobrenatural do Messias Jesus. No nosso caso, a prudência era necessária, pois as autoridades religiosas buscavam informações sobre o grupo dos apóstolos com o objetivo de prendê-los também Marcos 14.11, João 11.57.

Esse testemunho, atribuído ao apóstolo Pedro e citado por Marcos e depois retomado por Lucas, nos leva a supor que se trata da casa de Maria, a mãe de Marcos. Marcos, vivendo nessa residência, pôde acompanhar discretamente os acontecimentos da ceia, a partida do grupo e estar presente na prisão final. Não podia revelar abertamente que era a casa de sua mãe, mas os detalhes só podiam vir de alguém próximo, testemunha direta dos acontecimentos.

O temor das autoridades religiosas judaicas era palpável. Detalhes demais poderiam permitir às autoridades localizar o lugar de reunião, colocando assim em perigo Maria, sua mãe, bem como seus servos. Essa casa se tornaria depois um lugar de reunião para os discípulos em busca de refúgio.

A ressurreição do Messias Jesus e o discurso de Pedro em Pentecostes foram certamente fatores desencadeantes do engajamento pessoal de Marcos. Ele foi, portanto, testemunha dos últimos momentos da vida terrena do Messias Jesus e esteve presente em Pentecostes, tendo essa reunião ocorrido, com toda a verossimilhança, nessa mesma casa. É pouco provável que os discípulos dispusessem de várias casas grandes em Jerusalém. A hipótese dessa única casa, a de Maria, mãe de João, cognominado Marcos, torna-se lógica e nos ajuda a compreender o desenrolar dos acontecimentos durante a última ceia da Páscoa.

Maria, a mãe de João Marcos, era bem conhecida do Messias Jesus e dos discípulos, o que facilitou a introdução de seu filho nesse grupo. Judas Iscariotes também estava presente nessa casa, mas não conduziu até lá os soldados para a prisão do Messias Jesus.

Parece que Judas não desejava denunciar seus antigos companheiros, mas apenas o Messias Jesus. Com seu suicídio, escapou dos interrogatórios das autoridades religiosas judaicas, que queriam erradicar esse movimento nascente perseguindo os discípulos e seus apoiadores.

Os discípulos se escondiam, e esse jovem, Marcos, fugiu, deixando sua túnica nas mãos de seus agressores. Era primavera, em plena noite, e todos dormiam, de modo que Marcos não deve ter sentido muito frio e, sobretudo, escapou por pouco da captura.

Maria, a mãe de João, cognominado Marcos, possuía, portanto, uma casa em Jerusalém, que se tornou um ponto de encontro para os apóstolos. Era grande o bastante para acolher um número considerável de discípulos, estando presentes 120 no dia de Pentecostes.

Situada em um bairro residencial de Jerusalém, essa residência dispunha de servas e provavelmente de servos, entre eles o homem carregando um cântaro mencionado em Marcos 13.13.

João Marcos cresceu, portanto, em um meio privilegiado. É claro que Maria tinha uma confiança inabalável em seus servos e servas, pois acolher os apóstolos procurados pelos soldados não era isento de riscos. Eles provavelmente eram discípulos do Messias Jesus, como sugerem as palavras de Rode em Atos 12.14-16.

V. José de Arimateia

Alguns exegetas sugeriram um vínculo entre José de Arimateia e Maria, a mãe de João, cognominado Marcos. Os Evangelhos, não fornecendo nenhuma informação sobre a identidade do pai de Marcos, permitem especular sobre diversas possibilidades.

José de Arimateia, considerado como o marido ou o pai de Maria, é uma dessas hipóteses, motivada em particular pelo fato de que a vasta residência de Maria implica certa folga financeira. José, conhecido por ser um homem de posição importante e provável proprietário de uma grande casa, poderia corresponder a esse perfil. No entanto, esses vínculos permanecem puramente conjecturais na ausência de provas bíblicas diretas.

Não existe vínculo direto entre José de Arimateia e Maria, a mãe de João, cognominado Marcos, mencionada nos textos bíblicos. José de Arimateia é conhecido por ter pedido a Pilatos o corpo de Jesus após a crucificação para sepultá-lo em seu próprio túmulo novo, como relatado nos quatro evangelhos Mateus 27.57-60, Marcos 15.42-46, Lucas 23.50-54 e João 19.38-42.

Maria, a mãe de João, cognominado Marcos, é mencionada em Atos dos Apóstolos como uma figura importante da comunidade cristã primitiva em Jerusalém. Sua casa servia de lugar de reunião para a oração Atos 12.12.

Os Evangelhos e Atos dos Apóstolos não mencionam um vínculo familiar nem uma interação específica entre essas duas pessoas. Elas aparecem em contextos diferentes e desempenham papéis distintos nos relatos do Novo Testamento.

VI. O vínculo especial de Pedro com Marcos e o projeto de Pedro

O pai de Marcos nunca é mencionado, o que sugere que Maria poderia ser viúva. Ele certamente fazia parte da rica elite religiosa da época que residia nas proximidades do templo.

Desde a mais tenra idade, Marcos está imerso nesse ambiente. Embora seja então apenas um adolescente, conhece os Apóstolos e o Messias, Jesus. Mantém um vínculo especial com um deles, Pedro.

Essa expressão afetuosa provém certamente do fato de que Marcos se converteu durante um discurso de Pedro, talvez em Pentecostes, logo após a crucificação, em 22 de maio do ano 33.

Marcos está muito engajado nessa nova missão e decide acompanhar Paulo e Barnabé em uma grande viagem com o objetivo de anunciar a Boa Notícia nos países vizinhos. Estamos então no ano 45.

Notamos que Barnabé, o amigo e principal colaborador do apóstolo Paulo, é primo de Marcos. Paulo aceita levar esse jovem como assistente na viagem.

Mas nem tudo corre como Marcos havia imaginado.

Marcos evidentemente não esperava tantas dificuldades nessa viagem. Não conseguiu acompanhar Paulo e Barnabé, que eram mais experientes. Desiste rapidamente e volta a Jerusalém.

Podemos imaginar seu desânimo e até a vergonha desse retorno prematuro.

Pedro vai ajudar esse jovem a superar essa provação. Podemos supor que, desde o seu retorno em 45, Pedro, vendo uma oportunidade, começa a trabalhar com Marcos na redação de seu Evangelho. Ele tinha o desejo de deixar um testemunho escrito para a posteridade, o que se depreende dos textos escritos posteriormente.

Pedro havia compreendido havia muito tempo que a escrita era o meio mais confiável de deixar um registro de seu testemunho e de seu ensino. Cuidava, portanto, para que suas palavras fossem postas por escrito. Silvano, seu secretário, parece ter sido encarregado de redigir as duas epístolas.

Seu Evangelho já havia sido posto por escrito com Marcos muito antes. Esse texto permaneceu anônimo durante os dois primeiros séculos, mas era comumente aceito que Pedro era seu autor e Marcos, o escritor ou intérprete.

Marcos jamais teria ousado, nem mesmo desejado, atribuir a si a redação deste Evangelho. Quanto às epístolas, o princípio é diferente: a menção do nome do autor é essencial.

Silvano deixa claro que é Pedro o autor delas. Essas cartas podem ser datadas de antes dos anos 64 a 68, período correspondente à perseguição conduzida pelo imperador Nero.

VII. O texto do Evangelho

Marcos havia recebido uma sólida instrução. Sua família abastada, residente em Jerusalém, lhe havia permitido ter acesso aos melhores mestres da capital. Ele dominava o grego.

A presença desse jovem intelectual poderia ter sido um sinal para Pedro de se engajar na redação de uma nova versão do Evangelho? Já mencionamos: a primeira versão do Evangelho, conhecida como ‘segundo Mateus’, não correspondia inteiramente às expectativas de Pedro.

De fato, esse livro, orientado principalmente para os leitores judeus, necessitava de uma revisão para se dirigir melhor aos leitores não judeus, em particular aos gregos.

No entanto, as qualidades intelectuais de Marcos não parecem tão notáveis quanto se poderia supor. A maioria dos especialistas concorda em dizer que o estilo é bastante rudimentar e que nem Marcos nem Pedro possuíam as competências literárias de um Paulo.

Apesar dessas críticas severas e surpreendentes, é inegável que esse texto foi lido e relido por centenas de milhões de pessoas.

O estilo grego das duas epístolas de Pedro é nitidamente diferente, o que sugere uma contribuição significativa de Silvano.

Ao longo das épocas, seja na Antiguidade, na Idade Média, durante o Século das Luzes ou na época moderna, essas linhas cativaram um número incalculável de leitores por razões pessoais inegáveis. Há verdadeiramente algo de excepcional neste Evangelho de Marcos e, mais amplamente, em toda a Bíblia.

VIII. A aventura do jovem Marcos

A história de Marcos não termina aí. Após o concílio de Jerusalém, em 49, ele deseja novamente acompanhar Paulo e Barnabé em uma segunda viagem. Cerca de cinco anos se passaram, e a posição do apóstolo Paulo tornou-se radical.

O apóstolo Paulo se recusa categoricamente a levar Marcos de novo como ajudante, sua decisão é irrevogável. Diante dessa situação, Barnabé se separa de Paulo e decide partir para a ilha de Chipre, da qual é originário, acompanhado de seu primo Marcos. Paulo, por sua vez, partirá com Silas.

Não dispomos mais de detalhes sobre essa viagem, pois toda a atenção é agora captada por Saulo de Tarso, tornado o Apóstolo Paulo. É interessante notar, no entanto, que as relações entre Paulo e Marcos melhoraram nitidamente depois.

Perto do fim de sua vida, Paulo solicita a ajuda de Marcos, reconhecendo sua utilidade para o ministério. Se o apóstolo Paulo afirma isso, é verossimilmente porque constatou pessoalmente as novas qualidades de Marcos.

Parece que Marcos e Lucas, dois autores dos Evangelhos, conviveram nessa época. Provavelmente conversaram sobre seus respectivos trabalhos, mesmo que a redação do Evangelho de Marcos estivesse concluída havia muito tempo.

IX. Data de redação do Evangelho de Marcos

É difícil determinar uma data precisa de redação para este Evangelho. É importante não confundir redação com tradução ou cópia. O sucesso deste livro se deve ao fato de que, em sua primeira publicação, muitas pessoas podiam autenticar os acontecimentos que ele narra. O testemunho desses primeiros leitores reforçou a credibilidade do escrito.

Não se deve supor que esses leitores eram crédulos e aceitavam sem provas esses relatos extraordinários. Eles também precisavam de provas, e a confirmação por muitas testemunhas ainda vivas foi determinante na propagação e no sucesso deste Evangelho.

Não podemos afirmar que a primeira versão publicada fosse tão completa quanto a que conhecemos hoje. Algumas passagens podem ter sido acrescentadas pelos próprios autores ao longo dos anos, antes de chegar à nossa versão definitiva.

Essa prática não é duvidosa, mas reflete antes o desejo dos escritores, testemunhas dos acontecimentos, de transmitir a versão mais perfeita e compreensível.

Estamos convencidos de que o primeiro esboço deste Evangelho já era conhecido antes do concílio de Jerusalém, em 49, e que, desde o ano 45, Pedro e Marcos haviam começado a trabalhar nesse projeto. Inicialmente, tratava-se de retomar e revisar o texto de Mateus.

É por todas essas razões que consideramos uma publicação por volta dos anos 46 ou 47, no máximo.

X. O final do Evangelho de Marcos

Para mais informações, você pode consultar o capítulo: “Os Evangelhos”

Os últimos doze versículos de Marcos 16.9-20 não aparecem em alguns dos manuscritos mais antigos, o que levou diversos eruditos a afirmar que foram acrescentados tardiamente ao texto original.

No entanto, dispomos de testemunhos de escritores do segundo século que fazem referência a ele. Em nossas traduções modernas, essa passagem é frequentemente colocada entre parênteses, como faz a tradução , para indicar que não está presente em todos os manuscritos considerados originais. Estamos assim diante de um debate de especialistas sem consenso claro.

Ao ler o texto, notamos uma transição brusca entre os versículos Marcos 16.8 e Marcos 16.9, sem ligação aparente entre essas duas partes, o que sugere de fato um acréscimo a essa conclusão. Apesar disso, dois pontos importantes devem ser notados. Primeiro, o texto permanece conforme os demais escritos dos Evangelhos e não contradiz nem se afasta dos outros relatos em momento algum. Segundo, a Igreja incluiu esses doze versículos no cânon.

Nessas condições, não há motivo para duvidar da autenticidade desse relato, mesmo que possamos considerar que foi escrito um pouco mais tarde.

Consideramos duas hipóteses principais: a primeira, Marcos e Pedro teriam concluído seu relato no versículo Marcos 16.8, depois julgado que esse final poderia ser melhorado, acrescentando assim posteriormente os últimos doze versículos.

A segunda, o final original de seu relato teria sido perdido, provocando essa nova redação. É até possível que outro autor, com certa autoridade na Igreja, tenha feito essa modificação com base nos relatos de Mateus e de Lucas.

Parece difícil, diante das informações limitadas de que dispomos, determinar as verdadeiras razões dessa mudança no final do Evangelho de Marcos, mas as informações que ele traz se alinham com os textos dos outros Evangelhos.

Conclusão

Esse texto atribuído a Marcos e Pedro aparece como uma revisão do de Mateus, com as referências à cultura judaica suprimidas. Este Evangelho parece dirigir-se principalmente aos não judeus, pouco familiarizados com os escritos dos grandes profetas mencionados na .

Embora sua redação não alcance a qualidade literária dos escritos de Paulo, seu ritmo rápido e suas curtas sequências de acontecimentos, desprovidas de floreios, fazem dele um relato cativante, particularmente adaptado a uma geração em busca de informações diretas.

Ao contrário de seus contemporâneos, Marcos não traz elementos inéditos e se encontra, portanto, incluído nos relatos de Mateus e de Lucas. Teoricamente, poderia ser omitido sem alterar significativamente a compreensão global desses acontecimentos. No entanto, a importância desse relato reside em outro ponto: ele responde hoje perfeitamente às necessidades de uma geração que se afasta da leitura aprofundada e das convenções literárias tradicionais em favor de uma abordagem mais direta da informação.

As diferentes cenas apresentadas por Marcos e Pedro se assemelham às nossas histórias em quadrinhos modernas, que cativam tantos jovens leitores. A mensagem viva do Messias Jesus, relatada no Evangelho de Marcos, era provavelmente destinada também à jovem geração contemporânea.