Lucas descreve aqui uma situação absolutamente notável, que testemunha o rápido crescimento da Igreja primitiva. Os milagres se multiplicam e o autor esclarece que são realizados “pelas mãos dos apóstolos” (Atos 5.12). Essa formulação mostra que a atividade milagrosa já não se limita a Pedro e João, mas diz respeito agora a todo o colégio apostólico. A expressão “pelas mãos” (dia tōn cheirōn) ressalta que os apóstolos são os instrumentos por meio dos quais Deus age, conforme a promessa de Jesus de que os seus discípulos realizariam obras semelhantes às dele (João 14.12).
Os apóstolos se reúnem publicamente no pórtico de Salomão, na esplanada do Templo, lugar já mencionado por ocasião do discurso de Pedro após a (Atos 3.11). Esse pórtico, colunata coberta que margeava o lado oriental do átrio dos gentios, constituía um espaço propício ao ensino e às reuniões. O próprio Jesus ali ensinou (João 10.23). Longe de se esconderem, os apóstolos exercem agora o seu ministério no coração da vida religiosa de Jerusalém, cumprindo assim a missão que o Senhor ressuscitado lhes havia confiado: ser as suas testemunhas “em Jerusalém” antes de chegar “aos confins da terra” (Atos 1.8).
2- A distinção do grupo apostólico
Lucas ressalta também que os apóstolos constituem agora um grupo distinto, reconhecido e respeitado. O texto esclarece que “nenhum dos outros ousava juntar-se a eles” (Atos 5.13). Essa observação suscitou diversas interpretações entre os comentaristas. O temor inspirado pelos recentes acontecimentos envolvendo Ananias e Safira (Atos 5.1-11) explica provavelmente essa reserva: quem pensasse em associar-se aos apóstolos devia medir a seriedade de tal compromisso. A santidade de Deus manifestada no julgamento do casal mentiroso lembrava que pertencer à comunidade cristã não era um assunto leve.
Contudo, essa reserva não diminuía em nada a estima de que os apóstolos gozavam junto ao povo (Atos 5.13). Esse aparente paradoxo — o temor coexistindo com a admiração — lembra a atitude das multidões diante de Jesus depois de certos milagres (Lucas 5.26; Lucas 7.16). A presença manifesta de Deus suscita ao mesmo tempo reverência e atração. A Igreja primitiva desfrutava assim de uma reputação favorável junto ao povo, situação que Lucas já havia anotado anteriormente (Atos 2.47).
3- O crescimento contínuo da Igreja
A Igreja não parava de crescer, e tanto homens como mulheres vinham à fé em grande número (Atos 5.14). Essa menção explícita das mulheres merece ser destacada. Lucas, tanto em seu evangelho como em Atos, dá uma atenção especial ao lugar das mulheres na história da salvação (Lucas 8.1-3; Atos 1.14; Atos 9.36-42). A presença significativa delas entre os convertidos testemunha a universalidade da mensagem evangélica, que transcende as barreiras sociais e culturais da época.
Embora Lucas não mencione mais explicitamente os batismos nessa passagem, nada permite pensar que essa prática, instaurada por ocasião do Pentecostes, tenha cessado (Atos 2.38-41). O batismo constituía o rito de entrada na comunidade dos crentes, conforme a ordem do Senhor (Mateus 28.19). É, portanto, verossímil que os novos crentes continuassem a ser integrados à Igreja por esse sacramento, recebendo assim o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo (Atos 2.38).
4- As cenas de cura e o paralelo com o ministério de Jesus
As cenas descritas lembram as do ministério terreno de Jesus. Como outrora em torno do Mestre, os doentes afluem aos apóstolos, e as multidões esperam obter a cura (Mateus 4.23-25; Marcos 6.56). Essa continuidade não é fortuita: os apóstolos prolongam a obra daquele que os enviou. O próprio Jesus havia anunciado que os seus discípulos fariam “obras maiores” que as dele, não em qualidade, mas em extensão, graças à efusão do Espírito (João 14.12).
Lucas relata até mesmo que alguns colocavam os doentes nas ruas, em leitos e macas, para que a sombra de Pedro os alcançasse quando ele passasse (Atos 5.15). Esse detalhe evoca os relatos evangélicos em que os doentes procuravam para serem curados (Marcos 5.27-28; Marcos 6.56; Lucas 8.44). O texto não afirma que a sombra em si possuísse uma virtude particular; ele põe em evidência, antes, a fé e a esperança extraordinárias do povo. Assim como a mulher com hemorragia foi curada por sua fé ao tocar a roupa do Senhor (Lucas 8.47-48), a fé dos habitantes de Jerusalém os predispunha a receber a cura divina.
5- A eficácia das curas e a afluência das multidões
Seja como for, o resultado é inequívoco: “todos eram curados” (Atos 5.16). Essa afirmação notável ressalta o poder extraordinário que acompanhava o ministério apostólico. Lucas esclarece que as multidões acorriam também “das cidades vizinhas de Jerusalém”, trazendo doentes e pessoas atormentadas por espíritos imundos (Atos 5.16). A fama dos apóstolos se estende assim para além dos muros da cidade santa, lembrando como a reputação de Jesus se havia espalhado por toda a região circunvizinha (Lucas 4.14; Lucas 4.37).
A menção dos espíritos imundos indica que o ministério apostólico incluía a libertação de endemoninhados, como Jesus havia dado o exemplo e o mandato (Marcos 16.17; Lucas 9.1). Uma tal sucessão de milagres — curas físicas e libertações espirituais — devia suscitar imensa alegria entre a população e contribuir para o aumento constante do número dos discípulos. Esses sinais atestavam que o Reino de Deus estava verdadeiramente presente e atuante no meio do povo (Lucas 11.20).
6- Os desafios da administração de uma comunidade em expansão
A Igreja conhece assim uma expansão espetacular, enquanto os apóstolos precisam aprender a administrar uma comunidade que se tornou particularmente numerosa. Esse rápido crescimento logo colocará desafios organizacionais, como mostrará o episódio das murmurações entre hebreus e helenistas, que levará à instituição dos sete diáconos (Atos 6.1-6). A sabedoria dos apóstolos consistirá então em delegar certas responsabilidades para se dedicarem plenamente “à oração e ao ministério da Palavra” (Atos 6.4).
Toda discrição parece agora impossível para os apóstolos. O ministério público deles, as multidões que os cercam e os milagres que realizam atraem inevitavelmente a atenção das autoridades. A Igreja primitiva não podia permanecer um movimento marginal; tornava-se um fenômeno impossível de ignorar no cenário religioso de Jerusalém.
7- A inquietação e o ciúme das autoridades religiosas
As autoridades religiosas observam essa efervescência com inquietação e ciúme (Atos 5.17). O termo grego zēlos, traduzido aqui por “ciúme”, pode também significar “zelo”. Contudo, nesse contexto, trata-se manifestamente de um ciúme hostil provocado pelo sucesso dos apóstolos. Os , que controlavam o e o sacerdócio naquela época, estavam particularmente irritados com a pregação da ressurreição, doutrina que rejeitavam (Atos 4.1-2; Mateus 22.23).
e são obrigados a constatar que estão diante de acontecimentos que nenhuma explicação natural consegue facilmente esclarecer. As curas extraordinárias e as numerosas conversões constituem, aos olhos da população, sinais manifestos da intervenção divina. Essa situação lembra o dilema que o havia enfrentado depois da : “Que faremos com estes homens? Pois é notório a todos os habitantes de Jerusalém que um milagre foi realizado por eles, e não o podemos negar” (Atos 4.16).
8- O fracasso da oposição humana diante da obra divina
Os chefes judeus tinham pensado em pôr fim ao movimento iniciado por Jesus condenando-o à morte. Tinham acreditado que, eliminando o pastor, as ovelhas se dispersariam (Zacarias 13.7; Mateus 26.31). No entanto, longe de desaparecer, o movimento conhece um desenvolvimento ainda mais considerável. A ressurreição de Jesus havia transformado a aparente derrota em vitória retumbante, e a efusão do Espírito no Pentecostes havia dado aos discípulos um poder novo (Atos 1.8).
Alguns versículos adiante, , doutor da Lei respeitado e mestre do apóstolo Paulo (Atos 22.3), formulará um princípio que permaneceu famoso: “Se este empreendimento ou esta obra vem dos homens, será destruído; mas, se vem de Deus, vós não podereis destruí-lo. Não corrais o risco de estar lutando contra Deus” (Atos 5.38-39). Esse conselho prudente revela uma sabedoria que os demais membros do teriam feito bem em meditar.
9- A luta contra Deus: um empreendimento fadado ao fracasso
Assim, as autoridades religiosas, ao prosseguirem sua oposição contra os apóstolos, encontram-se agora envolvidas numa luta que ultrapassa o quadro de um simples conflito humano. Aos olhos de Lucas, elas já não se opõem apenas aos discípulos, mas à própria ação de Deus. O termo empregado por , theomachoi (“combatentes contra Deus”), exprime com força essa realidade (Atos 5.39). A história bíblica oferece numerosos exemplos de tentativas humanas de se opor aos desígnios divinos, todas fadadas ao fracasso (Salmos 2.1-4; Provérbios 21.30).
A obra de Deus continua a progredir com um poder irresistível. O profeta Isaías havia declarado: “A minha palavra, que sai da minha boca, não voltará para mim vazia, sem ter executado a minha vontade e cumprido os meus propósitos” (Isaías 55.11). Da mesma forma, Jesus havia prometido: “Edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela” (Mateus 16.18). As perseguições futuras, longe de aniquilar a Igreja, contribuirão paradoxalmente para a sua difusão, segundo o princípio enunciado mais tarde por Tertuliano: “O sangue dos mártires é semente de cristãos.”
Conclusão: a soberania de Deus na expansão da Igreja
Essa passagem ilustra magistralmente a soberania de Deus na expansão da sua Igreja. Apesar da oposição das autoridades religiosas, apesar dos obstáculos humanos, a obra divina progride de modo irresistível. Os milagres autenticam a mensagem apostólica, as conversões se multiplicam, e a comunidade cristã se afirma como uma realidade incontornável no cenário religioso de Jerusalém.
Lucas convida assim os seus leitores a reconhecer a mão de Deus na história da Igreja primitiva. O que se desenrola não é fruto do acaso ou da habilidade humana, mas o cumprimento do plano redentor de Deus anunciado pelos profetas e inaugurado por Jesus Cristo. Como Pedro declarará diante do : “Importa antes obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5.29). Essa convicção animará os apóstolos ao longo de todo o seu ministério e permanece um modelo para a Igreja de todos os tempos.
- (Atos 1.8) – A promessa de poder e o mandato missionário
- (Atos 1.14) – As mulheres na comunidade primitiva
- (Atos 2.38); (Atos 2.38-41); (Atos 2.47) – O Pentecostes e suas consequências
- (Atos 3.11) – O pórtico de Salomão
- (Atos 4.1-2); (Atos 4.16) – A oposição dos
- (Atos 5.1-11) – Ananias e Safira
- (Atos 5.12-16) – Os milagres dos apóstolos
- (Atos 5.17); (Atos 5.29); (Atos 5.38-39) – A oposição e o conselho de
- (Atos 6.1-6); (Atos 6.4) – A instituição dos diáconos
- (Atos 9.36-42) – Tabita
- (Atos 22.3) – , mestre de Paulo
- (Isaías 55.11) – A eficácia da Palavra de Deus
- (Zacarias 13.7) – O pastor ferido
- (Salmos 2.1-4) – A oposição vã das nações
- (Provérbios 21.30) – Nenhuma sabedoria contra o
- (Mateus 4.23-25) – O ministério de cura de Jesus
- (Mateus 16.18) – A promessa a respeito da Igreja
- (Mateus 22.23) – Os e a ressurreição
- (Mateus 26.31) – O pastor ferido
- (Mateus 28.19) – A ordem de batizar
- (Marcos 5.27-28); (Marcos 6.56); (Marcos 16.17) – Curas e sinais
- (Lucas 4.14); (Lucas 4.37) – A fama de Jesus
- (Lucas 5.26); (Lucas 7.16) – O temor reverente
- (Lucas 8.1-3); (Lucas 8.44); (Lucas 8.47-48) – As mulheres e a fé
- (Lucas 9.1); (Lucas 11.20) – A autoridade dada aos discípulos
- (João 10.23) – Jesus no pórtico de Salomão
- (João 14.12) – As obras maiores
Onde os primeiros cristãos se reuniam?