ANX025

José diante do Faraó e Daniel diante de Nabucodonosor: paralelos e diferenças

José e Daniel encontram-se ambos longe de sua terra de origem e sob a autoridade de um soberano estrangeiro. José foi vendido para o Egito (Génesis…

37 min 46 versículos 2 livros

1. Dois israelitas a serviço de uma potência estrangeira

José e Daniel encontram-se ambos longe de sua terra de origem e sob a autoridade de um soberano estrangeiro.

José foi vendido para o Egito (Gênesis 37.28, 36).

Daniel foi levado para a Babilônia no contexto da dominação de Judá por Nabucodonosor (Daniel 1.1-6).

Suas situações históricas são diferentes, mas apresentam uma característica comum: cada um deve viver fielmente ao Deus de Israel num ambiente político e religioso estrangeiro.

Essa situação constitui o pano de fundo dos dois relatos de sonho.

2. Dois soberanos perturbados por sonhos

Génesis 41 começa com os dois sonhos do Faraó: as sete vacas gordas devoradas por sete vacas magras, depois as sete espigas belas engolidas por sete espigas magras (Gênesis 41.1-7).

O relato precisa:

“Pela manhã, o seu espírito ficou perturbado” (Gênesis 41.8).

Daniel 2 usa uma formulação comparável:

«Nabucodonosor teve sonhos. Seu espírito ficou perturbado, e ele não conseguiu dormir» (Daniel 2.1).

Nos dois relatos, o sonho do soberano desencadeia, portanto, uma crise.

O homem que governa um reino não domina a mensagem recebida durante o sono.

3. Os especialistas da corte são convocados

O Faraó:

“mandou chamar todos os magos do Egito e todos os seus sábios” (Gênesis 41.8).

Nabucodonosor manda chamar:

“os magos, os astrólogos, os feiticeiros e os caldeus” (Daniel 2.2).

Nos dois casos, o soberano se volta primeiro para os especialistas reconhecidos institucionalmente para tratar esse tipo de problema.

A semelhança é importante.

José e Daniel não são convocados inicialmente como os representantes naturais do sistema religioso dominante.

Eles intervêm depois que os recursos ordinários da corte mostraram os seus limites.

4. Uma diferença fundamental: o Faraó conta os seus sonhos

O paralelo não deve, contudo, ocultar uma diferença importante.

O Faraó conta os seus sonhos aos especialistas egípcios:

“O Faraó lhes contou os seus sonhos, mas não houve ninguém que lhos pudesse interpretar” (Gênesis 41.8).

José também recebe o relato completo dos dois sonhos antes de interpretá-los (Gênesis 41.17-24).

Em Daniel 2, Nabucodonosor exige mais.

Os caldeus pedem:

“Dize o sonho a teus servos, e daremos a interpretação” (Daniel 2.4).

Mas o rei se recusa a dissociar as duas operações.

Os sábios devem dar a conhecer a ele o sonho e a sua interpretação (Daniel 2.5-9).

Daniel é, portanto, colocado diante de uma dificuldade adicional: ele deve receber de Deus não apenas o sentido do sonho, mas o seu conteúdo.

5. O fracasso dos especialistas prepara a intervenção do servo de Deus

Em Génesis 41, os especialistas egípcios não conseguem fornecer a interpretação procurada.

Essa incapacidade leva o copeiro a lembrar-se de José, que havia interpretado o seu sonho na prisão (Gênesis 41.9-13).

Em Daniel 2, o fracasso dos sábios tem consequências ainda mais graves.

Nabucodonosor ordena a sua morte (Daniel 2.12).

Daniel toma então conhecimento da decisão e pede um prazo para dar a interpretação ao rei (Daniel 2.14-16).

Nos dois relatos, o fracasso da sabedoria da corte abre, portanto, o caminho para a intervenção de um servo do Deus de Israel.

6. José se recusa a atribuir a si mesmo a interpretação

Quando o Faraó declara a José:

“Ouvi dizer a teu respeito que, ouvindo um sonho, o podes interpretar” (Gênesis 41.15),

José responde:

“Não sou eu! É Deus quem dará ao faraó uma resposta favorável” (Gênesis 41.16).

Essa resposta é essencial.

José possui efetivamente uma capacidade particular de interpretação, mas se recusa a fazer dela uma faculdade autônoma.

O conhecimento vem de Deus.

O relato já o havia mostrado na prisão, quando José declarou:

“Não são de Deus as interpretações?” (Gênesis 40.8).

7. Daniel adota a mesma atitude

Daniel manifesta uma atitude muito próxima diante de Nabucodonosor.

Quando o rei lhe pergunta:

“Podes tu fazer-me saber o sonho que tive e a sua interpretação?” (Daniel 2.26),

Daniel não responde simplesmente que é capaz.

Ele declara:

«Este mistério que o rei pede, nem os sábios, nem os astrólogos, nem os magos, nem os adivinhos podem revelá-lo ao rei. Contudo, há no céu um Deus que revela os mistérios» (Daniel 2.27-28).

Em seguida esclarece:

«Não foi por haver em mim uma sabedoria superior à de todos os seres vivos que este mistério me foi revelado» (Daniel 2.30).

José e Daniel recusam, portanto, exatamente o mesmo deslocamento: aquele que consistiria em atribuir ao servo o que pertence a Deus.

8. “As interpretações pertencem a Deus”

A declaração de José em Gênesis 40.8 e a de Daniel em Daniel 2.28 podem ser aproximadas:

José: “Não são de Deus as interpretações?”

Daniel: “Há um Deus nos céus que revela os mistérios.”

As formulações diferem, mas a sua teologia converge.

A interpretação autêntica não resulta de um poder intrínseco do servo.

Ela depende de Deus.

Essa convicção distingue José e Daniel de uma concepção mágica na qual o intérprete possuiria em si mesmo o domínio dos segredos.

9. Deus dá a conhecer o que vai acontecer

José explica ao Faraó:

“Deus mostrou ao Faraó o que vai fazer” (Gênesis 41.25).

Ele repete:

“Deus mostrou ao Faraó o que está para fazer” (Gênesis 41.28).

Daniel emprega uma formulação muito próxima:

“O grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto” (Daniel 2.45).

Nos dois relatos, o sonho real é, portanto, compreendido como uma revelação a respeito do futuro.

O soberano recebe uma informação que não poderia ter obtido pelo exercício ordinário do seu poder.

10. A repetição do sonho no caso do Faraó

José explica também por que o Faraó recebeu dois sonhos correspondentes ao mesmo acontecimento:

“Quanto ao sonho ter sido duplicado ao Faraó, é porque esta coisa é determinada por Deus, e Deus se apressa a fazê-la” (Gênesis 41.32).

O sonho possui, portanto, uma função de revelação e de confirmação.

Daniel 2 não apresenta essa mesma repetição sob duas formas.

O sonho de Nabucodonosor constitui uma visão simbólica única, cujos diferentes elementos formam uma sequência.

Não se deve, portanto, buscar uma correspondência artificial entre todos os detalhes dos dois relatos.

11. Duas revelações do futuro, mas dois horizontes diferentes

O sonho do Faraó diz respeito a um período relativamente próximo e determinado:

sete anos de abundância seguidos de sete anos de fome (Gênesis 41.26-30).

O sonho de Nabucodonosor tem um horizonte muito mais amplo.

Começa com o reino do soberano:

“Tu és a cabeça de ouro” (Daniel 2.38),

depois anuncia vários reinos sucessivos antes de desembocar no reino estabelecido por Deus (Daniel 2.39-44).

Génesis 41 diz respeito principalmente à preparação para uma crise alimentar.

Daniel 2 desenvolve uma teologia da sucessão dos impérios e do desfecho da sua história.

12. José acrescenta uma recomendação prática

Depois de interpretar os sonhos, José propõe ao Faraó uma política destinada a preparar o Egito para a fome:

“Agora, pois, o Faraó escolha um homem sábio e inteligente e o ponha sobre a terra do Egito” (Gênesis 41.33).

Ele recomenda notadamente que se recolha uma parte das colheitas durante os anos de abundância (Gênesis 41.34-36).

Daniel não apresenta nada de comparável.

Não propõe a Nabucodonosor uma estratégia que permita impedir a sucessão anunciada dos reinos.

Essa diferença corresponde à natureza das duas revelações.

A fome de Génesis 41 exige uma preparação humana.

A sucessão profética de Daniel 2 revela uma história que o rei deve reconhecer como superior ao seu próprio poder.

13. O Faraó e Nabucodonosor reconhecem a origem divina da sabedoria

Depois da interpretação de José, o Faraó declara:

“Acharíamos um homem como este, em quem haja o Espírito de Deus?” (Gênesis 41.38).

Depois:

“Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão inteligente e sábio como tu” (Gênesis 41.39).

Nabucodonosor declara a Daniel:

“Em verdade o vosso Deus é o Deus dos deuses, o Senhor dos reis e o que revela os mistérios, pois pudeste revelar este mistério” (Daniel 2.47).

Nos dois casos, a capacidade do servo leva o soberano a reconhecer a fonte divina do conhecimento.

14. Os dois homens são elevados depois da interpretação

José passa diretamente da prisão a uma função extremamente elevada.

O Faraó lhe declara:

“Eis que te ponho sobre toda a terra do Egito” (Gênesis 41.41).

Entrega-lhe o seu anel, veste-o de linho finíssimo e lhe põe um colar de ouro (Gênesis 41.42).

Daniel conhece igualmente uma elevação espetacular:

“Então o rei engrandeceu a Daniel, e lhe deu muitos e grandes presentes; e o pôs por governador de toda a província da Babilônia e por chefe supremo de todos os sábios da Babilônia” (Daniel 2.48).

Os dois relatos seguem, assim, uma progressão comparável:

humilhação ou vulnerabilidade;

revelação divina;

interpretação diante do soberano;

reconhecimento de Deus;

elevação do servo.

15. A elevação não constitui a finalidade teológica dos relatos

Seria, no entanto, redutor ler esses episódios como uma simples promessa de que a fidelidade levaria necessariamente a uma promoção social.

José conhece antes a escravidão e a prisão.

Daniel vive na situação de um judeu deportado para a Babilônia e acaba de ser ameaçado de morte.

Outros relatos bíblicos mostram, aliás, que a fidelidade pode levar ao martírio e não à elevação.

A promoção de José e de Daniel cumpre uma função particular em seus respectivos relatos.

Ela permite notadamente que cada um ocupe uma posição que terá importância determinante na sequência da história.

16. A providência transforma uma situação de vulnerabilidade

Outro paralelo une as duas personagens.

José chega ao Egito sem o ter escolhido.

Daniel chega à Babilônia no contexto da conquista.

Nem um nem outro começa o seu percurso como membro poderoso da sociedade em que se encontra.

No entanto, a sua posição de vulnerabilidade torna-se progressivamente o lugar de uma ação providencial.

José resumirá o seu próprio percurso declarando a seus irmãos:

“Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar em vida a um povo numeroso” (Gênesis 50.20).

Daniel 2 não formula exatamente a mesma declaração, mas apresenta uma inversão comparável: aquele que devia ser executado torna-se aquele por meio de quem os condenados são poupados e que recebe em seguida uma função importante.

17. Dois homens capazes de servir sem confundir serviço político e fidelidade religiosa

José serve o Faraó.

Daniel serve Nabucodonosor.

Essa situação mostra que o exercício de uma função importante no seio de um poder estrangeiro não é apresentado, em si mesmo, como incompatível com a fidelidade ao Deus de Israel.

Mas essa participação tem limites.

José atribui constantemente a Deus a sua capacidade de interpretação.

Daniel também se recusa a confundir a sua função administrativa com uma adesão religiosa às práticas da Babilônia.

Os capítulos seguintes de Daniel mostrarão ainda mais nitidamente essa fronteira.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego servem a administração babilônica, mas se recusam a adorar a estátua (Daniel 3.12-18).

Daniel serve sob vários soberanos, mas se recusa a abandonar a sua oração quando esta é proibida (Daniel 6.4-10).

18. Uma diferença importante quanto aos especialistas estrangeiros

Em Génesis 41, o fracasso dos magos e dos sábios egípcios não leva à sua condenação à morte.

Em Daniel 2, o fracasso dos especialistas babilônios provoca, ao contrário, uma sentença coletiva:

“Com isso o rei se irou e enfureceu-se muito, e ordenou que matassem todos os sábios da Babilônia” (Daniel 2.12).

O próprio Daniel é atingido por essa sentença.

Quando recebe a revelação, ele pede:

“Não mates os sábios da Babilônia!” (Daniel 2.24).

Essa dimensão não tem verdadeiro equivalente em Génesis 41.

Ela acentua o caráter dramático de Daniel 2 e dá à intervenção de Daniel uma dimensão de preservação coletiva.

19. José recebe a interpretação; Daniel recebe o sonho e a interpretação

A diferença mais importante entre os dois relatos continua sendo a natureza exata da revelação.

José ouve o sonho e recebe a capacidade de interpretá-lo.

Daniel deve conhecer uma informação que o rei se recusa a comunicar.

A estrutura pode ser resumida assim:

Génesis 41:sonho conhecido do rei → sonho contado a José → interpretação dada por Deus.

Daniel 2:sonho conhecido do rei, mas não comunicado aos sábios → conteúdo do sonho revelado a Daniel → interpretação revelada → sonho e interpretação comunicados ao rei.

Daniel 2 leva assim até o seu termo a demonstração a respeito da revelação.

Daniel não pode construir a sua interpretação a partir de informações fornecidas por Nabucodonosor.

O conhecimento do próprio sonho deve vir de Deus.

20. Um paralelo que esclarece a continuidade bíblica

As correspondências entre José e Daniel mostram um modelo narrativo comum nas Escrituras.

Um servo do Deus de Israel vive no meio de uma potência estrangeira.

Um soberano recebe uma revelação que não compreende.

Os especialistas do reino mostram-se incapazes de fornecer a resposta esperada.

O servo de Deus é chamado.

Ele se recusa a atribuir a si mesmo o conhecimento.

Deus dá a conhecer o sentido do sonho.

O soberano reconhece a origem divina dessa sabedoria.

O servo é em seguida elevado.

Essas correspondências permitem ler Daniel 2 na continuidade de relatos bíblicos anteriores, sem concluir por isso que os dois episódios seriam idênticos.

21. Daniel 2 aprofunda o tema já presente em Génesis 41

Génesis 41 afirma:

“Deus mostrou ao Faraó o que vai fazer” (Gênesis 41.25).

Daniel 2 declara:

“Há um Deus nos céus que revela os mistérios e que fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos dias” (Daniel 2.28).

O princípio teológico é comparável.

Mas Daniel 2 amplia consideravelmente o horizonte.

O sonho do Faraó diz respeito ao futuro do Egito durante catorze anos.

O sonho de Nabucodonosor inscreve o seu próprio reino numa sucessão de potências que conduz finalmente ao Reino estabelecido por Deus.

O tema da revelação real torna-se assim uma verdadeira teologia profética da história.

22. Conclusão

A aproximação entre José diante do Faraó e Daniel diante de Nabucodonosor repousa sobre correspondências textuais e narrativas suficientemente importantes para serem levadas a sério.

Os dois relatos mostram um soberano perturbado por um sonho, o fracasso dos especialistas da sua corte, a intervenção de um servo do Deus de Israel, a atribuição explícita do conhecimento a Deus, o reconhecimento dessa origem divina pelo soberano e a elevação final do servo.

A diferença principal continua, contudo, essencial.

José recebe do rei o conteúdo do sonho que deve interpretar.

Daniel não o recebe de Nabucodonosor: Deus deve revelar-lhe ao mesmo tempo o sonho e a sua interpretação.

Essa diferença reforça a tese central de Daniel 2.

Daniel não é apresentado como um intérprete particularmente hábil, capaz de superar os especialistas babilônios a partir das mesmas informações.

Ele conhece precisamente o que nenhum ser humano presente na corte podia lhe comunicar.

É por isso que José podia declarar: “Não são de Deus as interpretações?” (Gênesis 40.8), ao passo que Daniel afirma: “Há um Deus nos céus que revela os mistérios” (Daniel 2.28).

Nos dois casos, o servo interpreta, mas Deus revela.