ANX003

A estrutura linguística: hebraico, aramaico, hebraico

O livro de Daniel apresenta uma particularidade notável: foi escrito principalmente em duas línguas, o hebraico e o aramaico. A passagem de uma para a outra não corresponde exatamente à separação entre os relatos históricos e as visões proféticas. Essa distribuição contribui para evidenciar a grande unidade de Daniel 2 a 7, ao mesmo tempo que levanta a questão da função literária de cada uma das duas línguas.

13 min 8 versículos 1 livro

1. Duas línguas principais

O livro de Daniel utiliza principalmente o hebraico e o aramaico.

Sua distribuição linguística geral é a seguinte:

Daniel 1.1-2.4a: hebraico

Daniel 2.4b-7.28: aramaico

Daniel 8.1-12.13: hebraico

A mudança de língua ocorre no meio de Daniel 2.4.

O relato começa em hebraico e depois especifica:

“Os caldeus responderam ao rei em língua aramaica” (Daniel 2.4).

A partir dessa resposta, o texto prossegue em aramaico até o fim do capítulo 7.

Daniel 8 volta então ao hebraico, língua mantida até o fim do livro.

2. Uma estrutura que não corresponde à divisão relatos/visões

Se a mudança de língua correspondesse simplesmente à mudança de gênero literário, poder-se-ia esperar:

Daniel 1-6: uma língua;

Daniel 7-12: outra língua.

Não é isso que o texto apresenta.

Daniel 7 é uma visão profética, mas permanece em aramaico.

Daniel 8 também é uma visão profética, mas volta ao hebraico.

A fronteira linguística encontra-se, portanto, entre Daniel 7 e Daniel 8, e não entre Daniel 6 e Daniel 7.

Essa observação é importante.

Ela mostra que Daniel 7 pertence simultaneamente a dois conjuntos:

por seu gênero, abre a grande série das visões recebidas diretamente por Daniel;

por sua língua e sua estrutura, encerra a unidade aramaica iniciada em Daniel 2.

3. Daniel 1: uma abertura em hebraico

Daniel 1 apresenta a entrada de Daniel e de seus companheiros no mundo babilônico.

O capítulo estabelece o contexto histórico e teológico de todo o livro: dominação de Jerusalém, deslocamento para a Babilônia, formação dos jovens judeus e primeira prova de fidelidade.

Essa abertura foi escrita em hebraico.

O início de Daniel 2 também permanece em hebraico até o momento em que os caldeus tomam a palavra diante de Nabucodonosor.

A passagem para o aramaico não coincide, portanto, com uma mudança de capítulo.

Ela ocorre no interior do próprio relato.

4. O aramaico de Daniel 2.4b a Daniel 7.28

O aramaico ocupa o centro do livro.

Esta seção contém:

Daniel 2 - o sonho da estátua;

Daniel 3 - a estátua de ouro e a fornalha;

Daniel 4 - a humilhação de Nabucodonosor;

Daniel 5 - o julgamento de Belsazar;

Daniel 6 - Daniel na cova dos leões;

Daniel 7 - a visão dos quatro animais.

Esse conjunto reúne, portanto, tanto relatos quanto visões.

Não pode ser definido simplesmente como uma seção histórica ou uma seção profética.

5. Uma unidade linguística reforçada por uma unidade literária

A importância da seção aramaica aparece com mais clareza quando se aproxima sua língua de sua estrutura.

Os seis capítulos podem ser organizados assim:

A - Daniel 2: sucessão dos reinos e Reino de Deus

B - Daniel 3: fiéis ameaçados e depois libertados

C - Daniel 4: soberano orgulhoso humilhado e depois restaurado

C' - Daniel 5: soberano orgulhoso julgado e derrubado

B' - Daniel 6: fiel ameaçado e depois libertado

A' - Daniel 7: sucessão dos reinos e domínio eterno

A correspondência entre a unidade linguística e os paralelos temáticos confere uma importância particular a Daniel 2-7 na arquitetura geral do livro.

O aramaico não é, portanto, apenas uma curiosidade linguística.

Ele contribui para delimitar uma verdadeira unidade literária.

6. Daniel 2 e Daniel 7: as duas extremidades do conjunto

As duas extremidades da seção aramaica tratam do mesmo grande tema.

Daniel 2 apresenta vários reinos sob a forma de uma estátua.

Daniel 7 apresenta vários reinos sob a forma de quatro animais.

Daniel 2 termina com o estabelecimento de um reino que jamais será destruído:

“O Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído” (Daniel 2.44).

Daniel 7 também conduz a um domínio eterno:

“O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (Daniel 7.14).

A seção aramaica é, portanto, emoldurada por duas revelações a respeito da sucessão e do fim dos reinos humanos.

7. Por que o aramaico?

A razão da mudança de língua continua sendo discutida.

O aramaico era amplamente utilizado no Antigo Oriente Próximo e tornou-se uma importante língua de comunicação internacional e administrativa.

É, portanto, tentador considerar que a seção aramaica tenha um alcance particularmente voltado para as nações e os reinos.

Essa explicação apresenta certa coerência: Daniel 2-7 de fato dá um lugar considerável aos soberanos estrangeiros, aos impérios e à soberania de Deus sobre as nações.

Convém, no entanto, manter a prudência.

O próprio livro não fornece nenhuma declaração que explique por que determinada parte foi escrita em hebraico e outra em aramaico.

A função exata do bilinguismo deve, portanto, ser distinguida de sua existência, que é diretamente observável.

8. O que se pode afirmar com certeza

Vários elementos podem ser estabelecidos diretamente.

Primeiro, o livro utiliza principalmente duas línguas.

Segundo, a seção aramaica estende-se de Daniel 2.4b a Daniel 7.28.

Terceiro, essa seção contém tanto relatos quanto profecias.

Quarto, Daniel 2 e Daniel 7 apresentam fortes correspondências temáticas.

Quinto, Daniel 8 marca simultaneamente o retorno ao hebraico e a abertura de uma nova fase das visões.

Esses dados pertencem à observação do texto.

9. O que pertence à interpretação

A razão precisa pela qual essas línguas foram distribuídas dessa maneira é mais difícil de estabelecer.

Várias explicações podem ser propostas:

o aramaico poderia corresponder a uma seção cujo alcance diz respeito particularmente às nações;

o bilinguismo poderia refletir contextos literários ou de transmissão diferentes;

a escolha das línguas poderia também participar de uma organização literária mais complexa do conjunto.

Essas possibilidades não possuem todas o mesmo grau de certeza.

Uma apresentação acadêmica deve, portanto, evitar transformar uma hipótese sobre a função das línguas em afirmação explícita do texto.

10. A volta ao hebraico em Daniel 8

Daniel 8 marca uma transição nítida.

A língua muda, mas a continuidade profética permanece.

Daniel 7 havia apresentado quatro reinos de forma simbólica.

Daniel 8 retoma a questão das potências políticas fornecendo identificações muito mais precisas:

“O carneiro que viste, o qual tinha dois chifres, são os reis da Média e da Pérsia. O bode peludo é o rei da Grécia” (Daniel 8.20-21).

O retorno ao hebraico não constitui, portanto, uma ruptura com os temas anteriores.

Ele acompanha antes uma nova etapa em seu desenvolvimento.

11. Daniel 8 a 12: Jerusalém, o povo e o cumprimento

A última seção hebraica desenvolve temas que dizem respeito particularmente a Daniel, ao seu povo, a Jerusalém, ao santuário e ao cumprimento das profecias.

Daniel 8 dá um lugar importante ao santuário.

Daniel 9 coloca Jerusalém e o povo de Daniel no centro da oração e da revelação das setenta semanas.

Daniel 10-12 desenvolve a última grande revelação e conduz até a libertação e a ressurreição.

Existe, portanto, uma diferença de ênfase entre a seção aramaica e essa última seção hebraica.

A primeira dá um lugar particularmente visível aos reinos e aos soberanos.

A segunda concentra-se mais nos acontecimentos que dizem respeito ao povo de Daniel e em sua inserção no desenrolar profético.

Essa observação é pertinente, mas não deve ser transformada em separação absoluta: as nações também estão presentes em Daniel 8-12, ao passo que o povo de Deus já intervém na seção aramaica.

12. O bilinguismo e a unidade do livro

A presença de duas línguas poderia, à primeira vista, dar a impressão de uma obra fragmentada.

O estudo da estrutura conduz, porém, a uma observação diferente.

Os temas ultrapassam as fronteiras linguísticas.

A sucessão dos reinos aparece em Daniel 2, Daniel 7 e Daniel 8.

A soberania divina atravessa o conjunto.

A perseguição dos fiéis aparece tanto nos relatos quanto nas visões.

A perspectiva do reinado definitivo desenvolve-se progressivamente até os últimos capítulos.

A mudança de língua não destrói, portanto, a unidade temática do livro.

Ela participa de uma composição na qual vários conjuntos permanecem profundamente ligados.

13. Uma estrutura em três grandes zonas

Do ponto de vista linguístico, o livro pode finalmente ser representado assim:

SeçãoLínguaFunção geral
Daniel 1.1-2.4aHebraicoIntrodução e início do relato
Daniel 2.4b-7.28AramaicoReinos, soberanos, fidelidade e soberania divina
Daniel 8.1-12.13HebraicoVisões sobre as potências, Jerusalém, o povo e o cumprimento

Essa representação não substitui as outras divisões do livro.

Ela as complementa.

Daniel possui assim várias estruturas sobrepostas:

relatos / visões;

hebraico / aramaico / hebraico;

Daniel 2-7 em estrutura concêntrica;

Daniel 10-12 como revelação contínua.

A riqueza da composição vem precisamente da combinação desses diferentes níveis.

Conclusão do anexo

O bilinguismo constitui um dos elementos mais importantes da estrutura de Daniel.

A distribuição:

hebraico → aramaico → hebraico

mostra que o livro não pode ser dividido unicamente entre uma primeira metade histórica e uma segunda metade profética.

Daniel 7 demonstra isso particularmente bem: pertence às visões proféticas, mas permanece na seção aramaica e encerra o conjunto iniciado em Daniel 2.

O dado mais sólido não é, portanto, uma hipótese sobre a razão exata da escolha das línguas, mas a observação de sua função na composição atual do livro.

A mudança de língua contribui para delimitar conjuntos.

As correspondências literárias ligam esses conjuntos.

Os temas comuns lhes dão sua unidade.

Assim, a diversidade linguística de Daniel não impede sua unidade; ela constitui, ao contrário, um dos elementos que permitem compreender sua arquitetura.