Lucas interrompe momentaneamente o relato das perseguições para descrever a organização e a vida cotidiana da jovem Igreja de Jerusalém (Atos 4.32-37). Ele ressalta antes de tudo a notável unidade que caracterizava essa comunidade: «A multidão dos que creram era um só coração e uma só alma» (Atos 4.32).
Essa expressão ressalta a profunda comunhão espiritual que unia os crentes e lembra os apelos à unidade que encontramos mais tarde nas epístolas (Efésios 4.1-6; Filipenses 2.1-4).
2- Uma solidariedade concreta
Essa comunhão espiritual se traduzia concretamente por uma profunda solidariedade material. Os crentes já não consideravam seus bens como pertencendo-lhes exclusivamente, mas os punham voluntariamente a serviço da comunidade. Lucas precisa que não havia nenhum necessitado entre eles (Atos 4.34), retomando assim uma promessa da Lei que devia caracterizar o povo de Deus (Deuteronômio 15.4).
Certos discípulos possuíam terras ou propriedades. Vendiam-nas livremente e levavam o produto dessas vendas aos apóstolos, que tinham a responsabilidade de redistribuí-lo conforme as necessidades de cada um (Atos 4.35). Não se tratava de modo algum de uma partilha obrigatória dos bens, mas de uma iniciativa voluntária inspirada pelo amor fraterno. As necessidades a que era preciso atender diziam respeito principalmente à alimentação, à hospedagem e às necessidades cotidianas das famílias mais modestas.
3- Uma transformação das prioridades
O relato de Lucas deixa transparecer uma grande confiança nos apóstolos, a quem era confiada a gestão desses recursos. Essa generosidade testemunha a transformação operada pelo Evangelho na vida dos crentes. As riquezas materiais já não parecem ocupar o lugar central que costumam ter nas sociedades humanas.
Ao contrário do jovem rico, que não tinha conseguido resolver-se a abandonar seus bens para seguir Jesus (Mateus 19.16-22), vários discípulos estavam agora dispostos a desfazer-se voluntariamente de parte de seu patrimônio para socorrer seus irmãos e irmãs na fé.
4- Um testemunho poderoso
Essa solidariedade era acompanhada do poderoso testemunho prestado pelos apóstolos à ressurreição do Senhor Jesus. Lucas ressalta que davam esse testemunho «com grande poder» e que uma grande graça repousava sobre toda a comunidade (Atos 4.33).
A ação de Deus não se manifestava, portanto, apenas pelos milagres realizados por meio dos apóstolos, mas também pela unidade, pelo amor fraterno e pela generosidade que caracterizavam os crentes. Essas qualidades contribuíram sem dúvida para o desenvolvimento regular da Igreja (Atos 2.47).
5- O exemplo de Barnabé
Por fim, Lucas introduz a personagem de José, apelidado Barnabé pelos apóstolos, um levita natural de Chipre (Atos 4.36). Ao vender um campo que possuía e entregar o produto da venda aos apóstolos (Atos 4.37), Barnabé torna-se um exemplo concreto dessa generosidade.
Essa breve apresentação provavelmente não é fortuita. Esse discípulo, chamado a tornar-se um dos principais colaboradores de Paulo, desempenhará um papel importante na expansão do cristianismo. Dedicaremos, aliás, um estudo particular a essa importante personagem da Igreja primitiva.
6- Uma obra do Espírito Santo que transforma as relações humanas
Assim, aos olhos de Lucas, o poder de Deus não se manifestava unicamente por meio dos milagres realizados pelos apóstolos ou do testemunho deles prestado à ressurreição do Messias Jesus (Atos 4.33). Revelava-se também na transformação profunda das relações humanas, na unidade que reinava entre os crentes e na generosidade de que davam prova uns para com os outros.
Essa obra do Espírito Santo permitia à jovem Igreja refletir concretamente os ensinamentos do Senhor sobre o amor fraterno (João 13.34-35). Contudo, Lucas vai mostrar em breve que essa unidade permanecia imperfeita e que nem todos partilhavam necessariamente a mesma sinceridade.
O relato de Ananias e Safira (Atos 5.1-11) lembrará que, apesar da notável ação de Deus no seio da comunidade, a Igreja primitiva não estava ao abrigo das fraquezas e das tentações humanas.
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